Técnicas Sanguíneas — Interlúdio I: 1 dia

Os vampiros estão de volta.

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

Como prometido, nos próximos meses trarei pra vocês alguns capítulos de interlúdio pra preparar seus corações para a terceira temporada. Isso também é uma estratégia mirabolante para me dar tempo de escrever a terceira temporada — já escrevi uns 10 capítulos, e acho que está quase na metade, mas para a escritora jardineira é difícil ter certeza — e poder lançá-la sem outro intervalo gigante.

Acho que não tenho nenhuma atualização relevante sobre a minha vida. Sigo lendo, sigo tocando o blog Verifique Antes de Ler… ah, não, espera. Eu adotei uma gatinha nova! Conheçam a Trinity!

Foto de uma atinha dormindo enrodilhada sobre a mesa o computador ao lado do notebook. Ela é tricolor, com as costas mais preta e laranja e o branco principalmente na barriga.

Dormindo ela é uma graça, mas acordada é tipo o diabo da Tazmânia kkkkk

Mas, fora isso, realmente nada muito emocionante, o que é bom, porque assim não demora muito pra vocês chegarem no capítulo da história. Se vocês ainda não leram Técnicas Sanguíneas, vocês podem encontrar os capítulos de cada temporada organizados em índices: em Noite Sem Fim, o policial Daisuke Koyama acorda como vampiro e tenta se adaptar à sua nova rotina nortuna; e em Sol Cruel ele navega um pouco mais entre os vampiros da cidade, enquanto lida com as expectativas de sua criadora.

Quem ainda não respondeu, por favor tire um minutinho para responder essa enquete sobre frequência de envio de e-mails. Quero garantir que a leitura de Técnicas Sanguíneas e da newsletter em geral vai ser confortável para todos:

Por último, vale recapitular os avisos de conteúdo da história:

AVISO DE CONTEÚDO

Técnicas Sanguíneas é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Em dado momento da história uma pesonagem revela que está sofrendo abuso sexual, e em decorrência desse abuso sofre de ideações suicidas. Eu não escrevo descrições explícitas, e tento ser sensível ao tratar do tema, mas a história também não é um “manual de como lidar com isso”. Lembrem que a reação dos personagens nem sempre será a melhor possível, tenham sabedoria ao lidar com os níveis de desconforto que esses temas causam, e procurem ajuda. Nos capítulos em que esses temas forem centrais, eu pretendo dar um aviso extra, mas eles podem ser mencionados rapidamente em qualquer capítulo.

Fiquem agora com Técnicas Sanguíneas.

Banner de fundo degradê preto em cima e vermelho escuro em baixo, com vinhas e pétalas douradas espalhadas ao vento, e o título "Técnicas Sanguíneas" em uma fonte serifada, vermelha com efeitos metálicos. Acima e abaixo do título, na cor branca: A. C. Dantas, e parte 2.

I

– 1 dia –

As trigêmeas estavam se arrumando pra sair.

Elas eram vampiras há apenas 2 anos a mais do que Hana, mas não só eram biologicamente mais velhas como exalavam tanta confiança que Hana tinha que se esforçar para lembrar que elas não tinham séculos de experiência.

Naquela primeira noite Bárbara havia dito que vinte anos não era uma idade ruim para ser transformada. Vampiros transformados aos 18 sofriam o assédio incansável de pessoas pedindo para ver a identidade deles, mas aos 20 isso quase não acontecia. Hana estremeceu, como sempre que pensava naquela noite. Durante os primeiros meses após sua transformação ela sentia uma espécie de calafrio constante. Depois que passou, ela achou que tinha superado, até perceber que ela continuava estremecendo ao se lembrar da sua primeira noite… só criara barreiras mentais para evitar pensar no fato o máximo possível.

— Você tem certeza que não quer vir com a gente? — Tereza perguntou, passando um batom vermelho e encarando os caninos afiados no espelho enquanto limpava os excessos.

— Não, eu vou passar essa.

— Hana, você passa todas. — Dafne era menor do que Hana, mas não tinha como ser confundida com uma mulher mais jovem. — Você é muito certinha.

Fique aqui e siga as regras do Constantino.

Essa história de “você é muito certinha” já estava ficando chata. Pior: estava ficando racista, com a insistência de que ela era certinha porque era japonesa. Ou coreana. Havia tido um período incômodo quando elas insistiam que, se ela havia nascido e crescido na Coréia, ela devia ser coreana.

— Eu sou tão coreana tanto quanto Rudyard Kipling é indiano. — Havia sido a resposta de Hana, e ela tinha se sentido muito orgulhosa do argumento e da contundência com a qual o aplicara… até perceber que não surtira o efeito esperado. Suas novas colegas de quarto não sabiam quem era Rudyard Kipling.

As trigêmeas — que, Hana aprendera, não eram irmãs de verdade, apenas haviam sido transformadas na mesma noite — eram gentis, e tinham muita empatia pela confusão e dificuldade de adaptação do início da vida vampira, mas às vezes a comunicação entre elas e Hana era gravemente prejudicada pela falta de referências em comum. A bagagem cultural de Hana era sempre ou muito asiática, ou muito antiquada.

“Bom, desculpa se eu cresci cercada por pessoas 120 anos mais velhas do que eu!”

O número era uma média sem muito comprometimento com acuidade estatística. Os terceira-classes de Akihito podiam ser vampiros há apenas alguns anos, ou ter cinco ou seis décadas. Os segunda-classes eram todos centenários.

Então Hana passara o último ano inteiro ganhando referências culturais novas. Saíam para caçar juntas, iam a barzinhos usando o dinheiro roubado das suas vítimas, e visitavam vários “primos” — outros vampiros da prole de Constantino — para maratonar filmes e seriados. Às vezes era empolgante, essa vida nova. Hana havia crescido numa casa de vampiros, e internalizado desde muito jovem o fato de que “eles às vezes matam para se alimentar”. A transição para “às vezes eu mato para me alimentar” não foi tão difícil, e ela gostava da liberdade de andar pela cidade. Certo, partes da cidade, mas era mais do que ela via quando dormia metade do dia e passava a noite fazendo trabalhos domésticos na mansão de Akihito. Ela tinha dias de folga, claro… mas ela os passava com sua mãe, ou outros parentes que também viviam e respiravam dentro do circuito fechado de funcionários dos vampiros. Raramente ela e Yu Jun tiravam um dia para…

Hana interrompeu o fio de pensamentos. Certos assuntos eram… tabu. Pensar em sua mãe não causava a mesma sensação. Crescer cercada de vampiros era a sua referência cultural mais estranha. Vovó Kiku, com noventa anos e sendo a eterna irmãzinha de um vampiro que não parecia ter mais de 28 ou 29 anos. Pessoas imortais morriam. Pessoas mortais morriam, mas continuavam vivas, só que seu trabalho e posição na hierarquia da casa mudava da noite pro dia. Tantos tios e primos, e a presença onipresente de Akihito, a certeza de que mesmo que sua mãe morresse ela nunca estaria desamparada. Yu Jun era diferente.

“E por isso não pensamos na Yu Jun.” Ela suspirou, com o olhar levemente vidrado.

— Ok, desculpa pelo lance do “toda certinha”, você já disse que não gosta e eu devia parar. — Dafne a trouxe de volta pra realidade. — Foi um lapso, prometo que não faço mais isso.

Hana assentiu, torcendo para parecer que era isso que a estava incomodando. Sobre ela supostamente “passar todas”, isso tinha muito a ver com o fato de que as trigêmeas tinham uma abordagem muito frouxa para com as regras da família. Com seus criadores mortos, ninguém podia mantê-las sob controle com o sangue primário. Desde que não fossem pegas por um dos primos vampiros que reportariam a seus pais e mães, que reportariam a Constantino… podiam fazer o que quisessem. E às vezes Hana queria ir com elas, mas…

Fique aqui e siga as regras do Constantino.

Essa noite não era uma delas. Essa noite elas queriam ir a um barzinho universitário na zona livre. Mesmo que a ideia de ir a um território proibido não a apavorasse, a zona livre era diferente de uma pequena incursão no território de Wilson ou de Weiss. Os caçadores de vampiros patrulhavam ativamente a zona livre e, ao contrário dos vampiros dos territórios vizinhos, com os caçadores não havia diálogo.

Ia fazer uma última tentativa de dissuadir as duas, quando Geni entrou no quarto onde elas se arrumavam.

— Flor, o vô ligou. Disse que quer que você vá no escritório dele.

Geni chamava todo mundo de “flor”, mas depois que descobriu que hana significava “flor” em japonês, parecia que colocava uma ênfase na palavra ao falar com a vampira mais nova.

— Ele disse mais alguma coisa? — Hana perguntou, sem esperanças, e Geni balançou a cabeça. Não era do feitio de Constantino e seus filhos passarem informações pelo telefone.

As trigêmeas gostavam de especular se era mania de gente velha ou de vampiros em geral, e mesmo tendo vivido com vampiros a vida inteira, Hana também não tinha certeza. Akihito era o mais velho de todos, e ele estava sempre pendurado ao telefone, andando pra lá e pra cá com seu laptop fininho e caríssimo. Mas Haruka era a gêmea dele e não usava nenhuma tecnologia mais recente que um gramofone.

— Bom, parece que não vou poder ir com você, mesmo eu querendo tanto…Hana levou as costas da mão à testa num gesto dramático, as outras reviraram os olhos, e ela se dirigiu para a porta. Quando Constantino chamava, era sempre imediato.

***

— Boa noite, senhor Constantino.

— Boa noite, Hana.

Como humana, Hana havia frequentemente servido Haruka, até a alimentado algumas vezes. O pequeno alerta que o corpo humano emitia ao se ver na presença de um predador não podia ser silenciado, mas era como um barulhinho de fundo suave com o qual ela já havia se acostumado. Como vampira, parecia que o conjunto de alarmes era totalmente diverso. E configurados para atuar no volume máximo o tempo todo.

Ela não sentia medo de Constantino, apenas uma consciência tão plena de que ele era mais poderoso do que ela que parecia uma força física contraindo os pulmões dela.

“É muito conveniente que respirar seja opcional.”

— Você gostaria de se sentar? — Constantino ofereceu, e Hana franziu as sobrancelhas. Não o via pessoalmente com frequência, mas sabia pelos outros membros da gangue que essa não era uma oferta comum.

— Alguém morreu? — Ela tentou brincar, mas aceitou a cadeira só por garantia.

Constantino olhou para ela com seriedade.

“Ai não.”

Desesperada, Hana começou a repassar a lista de pessoas que poderiam ter morrido. Se acalmou um pouco quando pensou que a maioria das pessoas que importavam não eram pessoas cujas mortes entrariam no radar de Constantino. A única pessoa que cumpria os dois critérios era…

Hana estremeceu, e o patriarca vampiro se compadeceu dela.

— Não “morreu”, mas está numa situação um tanto complicada. Daisuke foi banido.

— Da casa, ou…?

— Ele não especificou, mas deu a entender que o território de Akihito não é mais seguro pra ele.

Parecia sério. O senhor Kim fora banido da mansão, mas às vezes aparecia quando Akihito o convocava. Uma parte de Hana se distraiu pensando como ainda considerava Kim o “senhor Kim”, mas convivência com a família de Constantino fazia o “mestre Akihito” ser apenas Akihito. A outra parte estava se perguntando o que Daisuke poderia ter feito de tão grave para ser banido não apenas da casa, mas do território. Constantino continuou:

— Você viveu a vida toda lá, eu suponho que você esteja ciente da técnica sanguínea de Haruka?

Hana hesitou. Já ouvira o termo, mas não era um assunto frequente, especialmente diante dos criados humanos. Não por qualquer segredo que os vampiros da casa estivessem guardando, mas porque geralmente os vampiros se isolavam entre si para não ficar sentindo o cheiro de sangue, e só lidavam com os criados para assuntos de interesse prático.

— Vejo que não. Bom, de forma geral é considerado rude falar sobre as técnicas sanguíneas das pessoas, mas você é uma descendente direta, e diretamente afetada pela situação. — Ele esperou que Hana assentisse antes de continuar. — O sangue de Haruka causa dependência. Qualquer um que beber o sangue dela não pode mais se alimentar de outra coisa. Em vez de caçar humanos, Daisuke precisa se manter nas boas graças dela para receber sangue… e claramente isso não aconteceu.

“Isso significa…”

Agora Hana entendia porque o senhor Kim parecia sempre tão abatido nas poucas vezes que retornava à mansão. Se ele precisava da senhorita Haruka para se alimentar, ele devia estar passando fome. Ele ficara banido por um ano. Quanto tempo os vampiros podiam ficar sem se alimentar? Ela engoliu em seco, pensando na sede que se tornara uma companheira constante desde a transformação. A sede nunca ia embora, apenas se tornava ignorável por dois ou três dias depois que Hana se alimentava.

— Quanto tempo ele vai ficar banido?

Constantino suspirou, e tirou de sua gaveta um celular fino de aparência cara. O aparelho era de um tom de branco diferente de um modelo comum.

— Eu receio que indefinidamente. Essa era a única maneira de Haruka contatá-lo, caso ela quisesse chamá-lo de volta. Ele pediu para eu entregá-lo a você.

Hana pegou o telefone e apertou um botão na lateral. Não tinha senha ou padrão de bloqueio. Parecia aceitar um carregador de formato padrão. Haviam poucos aplicativos instalados. Abriu o aplicativo de mensagens. Só haviam mensagens trocadas com Haruka e uma Nathalie. Abriu o histórico de ligações. Apenas Haruka e “SPAM INTERNET FIBRA ÓTICA NÃO ATENDER”.

“Ganhar um smartphone nunca é ruim, eu acho.” Mas Hana não tinha certeza se teria tantas oportunidades de utilizá-lo. Os terceira e quarta-classe de Constantino em sua maioria não tinham telefones, e os segunda-classe eram anciões demais, uma geração anterior demais para se misturar com Hana e as trigêmeas. Talvez instalasse algum joguinho.

Não achava que Constantino a havia chamado apenas para entregar um celular.

— O que acontece comigo agora?

— Bom, eu recebi você em meu território como parte de um acordo com Daisuke. Sem se alimentar, ele estará incapaz de cumpri-lo. Se Haruka o procurar e acabar em vez disso falando com você, você acha que ela vai colocá-la sob sua tutela?

Difícil dizer. Em toda a sua vida, o único subordinado direto da senhorita Haruka fora o senhor Kim, e metade das vezes ele tinha tarefas de Akihito para desempenhar. Constantino entendeu a hesitação dela.

— Enquanto eu acredito que é melhor para jovens vampiros serem criados pela própria família, se isso não acontecer, eu não planejo despejá-la para viver de forma independente na zona neutra.

Hana estremeceu. A zona neutra era um pesadelo para caçar. Membros de todas as gangues passavam por lá, e tentar evitar cruzar o caminho de vampiros veteranos hostis era como navegar um campo minado. Mas não existia almoço grátis.

— O que eu vou ter que fazer?

— As tarefas que normalmente eu passaria para o seu pai.

Eu adoraria ouvir seus comentários sobre o capítulo, você pode responder no site ou pelo e-mail mesmo! Nos vemos em abril.

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