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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 55 (final da temporada)
No qual Haruka sai de casa
Tempo estimado de leitura: 14 minutos
O que vocês acharam sobre a pequeníssima minúscula totalmente desimportante informação sobre absorver a alma de outro vampiro bebendo o sangue dele? Vocês não tem ideia de há quanto tempo estava esperando pra escrever isso. (Mas, caso vocês QUEIRAM saber, o documento mais antigo que eu tenho no meu PC é de 2018, e normalmente a versão mais antiga ainda está com a data adulterada porque um dia eu abri, achei um erro de digitação e corrigi, então pode chutar 2017 com tranquilidade)
Como prometido, os assinantes estão recebendo um link para baixar a temporada 3 compilada em e-book. Se você ainda não é assinante, essa é a sua chance de corrigir isso:
Quem assinar entre hoje e dia 30/06 receberá os links, mas depois disso tirarei os e-books do ar e só volto a distribuir quando for publicar a quarta temporada.
E agora, sem mais delongas, o último capítulo de Técnicas Sanguíneas: Memento mori.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 55
No qual Haruka sai de casa
Daisuke acordou com o clamor do despertador analógico, colocado longe o suficiente do seu futon para que tivesse que levantar para desativá-lo. Se apresentou no quarto de Haruka, e viu que era o único lá.
— Daisuke, vá acordar o Kim.
Então Daisuke encontrou uma vassoura e cutucou Kim com o cabo como a mãe de Yu Jun fizera com ele alguns anos atrás. Kim acordou quebrando o cabo de vassoura em dois.
— Triste que esse não é o meu pescoço? — Daisuke perguntou, e Kim apertou os olhos. Daisuke estava parado próximo da porta do corredor, que, apesar das janelas de papel mais foscas do que o normal, ainda era mais iluminado do que os quartos. Talvez Kim sequer conseguisse vê-lo direito. — Haruka está nos chamando.
Quebrado em dois, o cabo de vassoura se convertia em uma estaca. Daisuke usou a ponta afiada para indicar que Kim fosse na frente, e o outro segunda-classe estava franzindo os olhos para a luz e cabeceando tanto de sono que não se dignou sequer a olhar feio para Daisuke pela atitude presunçosa.
"Acho que Haruka não costuma dar tarefas diurnas a ele."
Fazia sentido, já que a maioria das saídas diurnas de Haruka pareciam ser feitas com o propósito explícito de despistar o irmão.
Daisuke foi enviado para buscar caixas de papelão, enquanto Haruka e Kim usavam as últimas semanas de jornais descartados de Akihito para embalar os itens mais frágeis que a vampira traria consigo. Quando Daisuke voltou, se uniu aos dois no processo. Poucas palavras foram trocadas, já que não queriam que os funcionários humanos notassem uma movimentação incomum nos corredores designados a Haruka. Uma das poucas coisas que a vampira disse, entregando uma bolsa esportiva para Daisuke, foi:
— Você tem poucas roupas, devem caber todas aqui. — então ela pareceu pensar melhor e lhe entregou uma segunda bolsa — Pode fazer as malas do Kim também. Não quero ele longe de mim hoje. Não precisa levar os ternos.
Pela segunda vez Daisuke entrou no quarto de Kim, dessa vez prestando atenção em detalhes. Ao contrário do apartamento na zona neutra, o quarto de Kim tinha pouquíssima mobília e pertences pessoais. Também constatou que 90% das roupas de Kim eram ternos. Daisuke não achava que Haruka o deixaria sair para repor seu guarda-roupa tão cedo.
Assim que o sol tocou o horizonte, Haruka chamou o caminhão de mudanças. Qualquer terceira-classe que se aproximasse o suficiente para curiar a movimentação era colocado para carregar caixas, e o caminhão foi carregado em menos de trinta minutos. O motorista ficou impressionado com a quantidade de ajudantes que Haruka conseguira recrutar, e com o fato de que não precisaram carregar móveis e eletrodomésticos, normalmente a parte mais chata de organizar no transporte.
— Daisuke e Kim irão com o caminhão. Eu pegarei um táxi.
— Pode deixar, moça.
O motorista não parecia afetado pelos modos despóticos de Haruka, e ela nem estava usando Influência nele. Daisuke não sabia se o homem era só muito simpático, ou muito burro. Enquanto ele fechava a carroceria, Haruka deu instruções específicas para seus subordinados.
— Daisuke, você notará que Kim está excepcionalmente quieto hoje.
Daisuke não achava. Para ele, Kim era quieto sempre, exceto quando tinha que dedurar as atividades de Haruka para Akihito. Haruka continuou:
— Eu disse a ele que, se ele tem algum respeito por mim ou pelo sangue primário do meu irmão, ele ficaria quieto e seguiria minhas ordens sem se afastar um segundo de mim. Falha em cumprir com isso resultará em execução sumária.
“Ah.”
É claro que Haruka apertava o cerco a Kim nas vésperas de sua atitude de rebelião mais extrema.
— Até que eu chegue na nossa casa nova, você está no comando. Kim não deve se negar a seguir suas instruções, mas pelo menos responda as perguntas dele. Não quero ter que lidar com elas quando eu voltar. Se ele se recusar a cooperar ou sair do seu campo visual, me ligue imediatamente. — Haruka olhou para Kim, que parecia se esforçar para manter a expressão estoica — Eu detestaria começar essa nova fase da minha vida com um subordinado a menos.
Daisuke e Kim assentiram e entraram no caminhão.
Haruka os viu se afastando sob o céu que escurecia rapidamente, e ajustou sua postura. Só restava uma tarefa para a noite: falar com Akihito.
#
Quando o caminhão da mudança chegou na nova casa de Haruka, não havia uma legião de terceira-classes para ajudá-los a descarregar. Isso não era um problema. Já havia anoitecido, e apesar de cansados, Daisuke e Kim ainda podiam contar com força e resistência sobrenaturais. O motorista chegou a perguntar se eles precisavam de ajuda, mas Daisuke o atingiu com uma onda de Influência que dizia “tudo normal, tudo sob controle” enquanto rejeitava a oferta. Em questão de minutos o caminhão estava vazio e se afastando, deixando os dois segunda-classe a sós.
Daisuke chegou a considerar a possibilidade de Kim atacá-lo, mas bastou um olhar analítico sobre o outro para ver que ele ainda não havia se recuperado da aventura diurna.
“E olha que ele nem saiu no sol…”
Kim, por sua vez, também o encarava.
— Há quanto tempo você está planejando isso?
Ele tinha tanta certeza de que o plano partira de Daisuke. Seria rude decepcioná-lo.
— Desde a noite que Haruka quebrou todos os meus ossos e eu aceitei trabalhar para ela. — Daisuke saboreou o levíssimo arregalar de olhos de Kim. Sabia que para ele a matemática não faria sentido. Como a mudança de casa poderia ser um plano anterior ao seu banimento?
Depois disso Kim ficou em silêncio enquanto guardava seus poucos pertences no próprio quarto, com Daisuke parado no batente para mantê-lo no seu campo visual; e continuou em silêncio enquanto ficou parado no batente de Daisuke para que ele fizesse o mesmo.
Parecia que as perguntas haviam se encerrado, e Daisuke começou a abrir as caixas de Haruka, indeciso entre tentar arriscar uma disposição para as bugingangas dela e ser criticado por suas escolhas, ou aguardar a chegada dela e ser criticado pela falta de proatividade. Kim seguiu sua deixa e abriu outras caixas. Começou a colocar os livros da Haruka na estante, parando para examinar a samambaia sobre o móvel. Foi só quando chegaram ao quarto de Haruka, e Daisuke tentava dispor as roupas mais ou menos nas mesmas posições que ocupavam na mansão de Akihito, que Kim colocou a caixa de joias de Haruka sobre a penteadeira e conferiu o conteúdo da mesma.
— Você vendeu as joias dela?
— Ela vendeu as joias dela.
Foram as últimas palavras que trocaram naquela noite.
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Haruka havia enfiado todas as suas posses materiais no caminhão para que Akihito não conseguisse convencê-la a cancelar a mudança. Passara dias ensaiando todos os argumentos possíveis e imagináveis que o irmão podia usar para tentar impedi-la.
"Vai ser a primeira vez em seis séculos que não vamos morar juntos." Dizia um Akihito imaginário, fazendo chantagem emocional.
"Sim, e você não percebe o quanto isso é estranho? O natural é estabelecer territórios vizinhos, às vezes até brigar por território. Eu sei que eu passei por uma fase difícil, mas eu não poderia continuar grudada em você pra sempre!", ela respondia. Depois melhorava a própria resposta.
"Não, espera. Teve Kyoto. Você saiu de casa antes do esperado pra criar uma gangue em Kyoto, e foi um fiasco, lembra?"
"Foi um fiasco porque você não estava junto comigo!", vinha a resposta imaginária. "É por isso que eu chamei você para vir comigo para Hong Kong. Eu preciso de você, irmã!"
"Isso foi naquela época, Aki. Em Hong Kong nós tínhamos um território juntos. Agora você tem um território, e eu moro de favor."
"Eu não ligo".
"Mas eu ligo!"
Havia se exaltado com variações dessa conversa em sua cabeça uma dúzia de vezes, e ainda assim…
Pelo que esperava que fosse a última vez, bateu à porta do escritório de Akihito. Tentava se convencer de que sua posição dessa vez não era a de suplicante.
— Eu ouvi a comoção pela casa. — Akihito sorriu para ela ao abrir a porta. Ele estava um pouco mais amarrotado do que o normal, acabara de acordar, e precisara se vestir mais rápido para recebê-la em seu escritório. — Vai ser a primeira vez em seis séculos que não vamos morar juntos.
Haruka não soube o que dizer.
— Você tem tudo o que precisa? Documentos, alguém para cuidar dos seus impostos? — ele continuou.
Um pedacinho ínfimo dela pensou que, a não ser que Akihito pegasse Kim de volta, é claro que ela tinha alguém para fazer seus impostos, e que ela tinha documentos desde o início, mas estavam guardados numa pasta no escritório dele.
Esse pensamento não durou, e Haruka perguntou, dominada pelo impulso:
— Você não vai tentar me convencer a não ir?
Por um segundo Akihito também pareceu hesitar.
— Haruka, essa é uma dessas coisas de garota onde você diz que quer uma coisa mas quer outra? Eu achei que você estava tão, tão decidida a ir que a razão pela qual você não tinha me contado era exatamente pra eu não tentar te convencer.
De certa forma ele estava admitindo que, se achasse que tinha chances, tentaria sim convencê-la. Haruka registrou o fato, mas não conseguiu ficar brava. De fato, queria se desculpar por ter mantido todos os seus preparativos ocultos até a hora H.
— Eu quero ir. Isso é importante pra mim. Mas não é como se a gente precisasse cruzar território hostil para se ver.
— Pra onde você está indo?
— Eu comprei um sobrado no condomínio atrás do campo de golfe.
Akihito relaxou visivelmente com essa informação. Cruzou o espaço entre eles e pegou as mãos da irmã.
— Você me avisa quando estiver disposta a receber visitas, pra fazermos um brinde?
Aí estava: a menção ao brinde. Ela achava que ele tentaria lhe oferecer uma bebida antes que ela partisse. Se estivesse mesmo batizada com sangue para ativar uma técnica sanguínea, ele com certeza usaria isso para dissuadi-la, não?
Mais uma vez as suspeitas de Daisuke pareciam bobas.
— É claro que te aviso.
E então Haruka chamou um táxi e rumou para sua casa nova, onde seus dois subordinados solícitos a esperavam.
Eu agradeço de coração a todos os que leram até aqui. No fim de maio mando uma newsletter falando sobre o meu novo lançamento. Fiquem atentos para novidades.
Daisuke e Haruka retornarão em “Técnicas Sanguíneas: Carpe diem”
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