Técnicas Sanguíneas — Capítulo 53

No qual Yuri continua seu relato

Tempo estimado de leitura: 14 minutos

Na semana que vem não teremos capútlo, pois é a semana da minha newsletter de atualizações. Se tudo der certo, espero que assim que terminar essa temporada eu consiga lançar o conto no qual estive trabalhando no começo do ano, uma sequência de “Eu que não amo você” na qual Lionel e Samanta lidam separadamente com seus BOs emocionais.

Faltam dois capítulos para terminar a temporada, e já no dia do último capítulo eu vou liberar a versão compilada em e-book, então se você não assina a minha newsletter, essa é a hora, já que os e-books são exclusivos para assinantes.

Banner com fundo degradÊ preto em cima e azul em baixo, mostrando o título em vermelho "Técnicas Sanguíneas, parte 3, memento mori, de A C Dantas" com vários espinheiros no fundo.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.

Capítulo 53

No qual Yuri continua seu relato

Os três amigos ficaram em silêncio. Agora sabiam para onde essa história estava indo. Não precisavam que Yuri continuasse, não quando ele parecia tão aflito.

— Yuri, Yukio te mandou guardar segredo sobre isso?

— Ha! — O som que saiu de Yuri foi metade uma risada sem humor e metade um suspiro cínico. — Ele me mandou contar.

"Filho da mãe." Daisuke pensou. Não bastava Yukio ter colocado Yuri e Ed numa situação cruel e desesperadora, ele também queria arruinar a reunião dos ex-caçadores incumbindo Yuri de fazer essa revelação dramática.

— Não foi culpa sua. — Nathalie o assegurou. — Você já contou, não precisa continuar se não quiser.

Yuri balançou a cabeça.

— Eu devo isso ao Ed.

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Yuri e Ed só viram os outros dois terceira-classe de Yukio mais duas vezes, bastante rapidamente, antes dos dois pararem de frequentar o apartamento.

— Vocês os matou? — Yuri perguntou. Sempre tinha a impressão que Yukio queria bater nele quando fazia uma pergunta, mas o segunda-classe nunca fizera isso. Toda a violência contra eles era aplicada via sangue primário, fazendo a sensação de irritação na pele ficar cada vez mais intensa e profunda. "Sangue primário" fora um dos poucos termos vampíricos que seus veteranos haviam tido tempo de ensinar a eles antes de sumir.

— Eu não mato terceira-classes que são leais à gangue. Não, eles devem estar passando o dia na mansão, ou dividindo apartamento com alguém da mesma geração.

"A mesma geração" significando "outros terceira-classe da gangue de Akihito".

Yukio também removeu a televisão. Tudo para que Yuri e Ed passassem a maior quantidade de tempo possível sozinhos, sem distração nenhuma exceto pela sede crescente e a necessidade de matar um ao outro.

De alguma forma os dois ex-caçadores resistiam.

Ed se distraía através de um frenesi de atividade. Nos primeiros dias, sempre que ele e Yuri se encontravam sozinhos, tentava puxar assunto. Perguntava sobre seriados assistidos, filmes favoritos, bandas que o outro acompanhava, e no começo Yuri até tentava responder, mas não durou.

— Por favor, Ed, cala a boca. Eu não quero te matar, e parece que o melhor jeito de evitar isso é não pensar em você. Pensar em você dói.

— Ah.

Ed soou tão chateado que Yuri se forçou a olhar pra ele — vinha evitando isso também —, mas Ed rapidamente encontrou outra coisa para se entreter. A retirada estratégica dos outros terceira-classe acontecera tão rápido que eles haviam deixado pertences pessoais para trás. Revirou as coisas de Takada e Kaede, fazendo conjecturas sobre a história e personalidade de ambos. Aparentemente Kaede era nipo-brasileiro. Sua carteira de motorista o apresentava como Lucas Kaede Hamada Castanheira. Mesmo raramente falando com Yuri, Ed mantinha diálogo deixando os itens mais interessantes onde o outro poderia ver. Uma vez chegou até a deixar um papel rabiscado com um jogo da velha, e os dois jogaram tão devagar que levaram 5 dias para empatar.

Quando parecia que Ed estava desacelerando, encontrou um livro de origami nas coisas de Takada. Em japonês, com anotações em coreano rabiscadas nas margens. Ed escolheu algum livro do quarto de Yukio e arrancou cada uma das páginas para fazer dobraduras.

— Ed, ele vai acabar te matando.

— Eu prefiro que ele me mate do que você.

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Mas Yukio não vinha todos os dias, e quando vinha era apenas pra fazer um comentário genérico como "então vocês ainda estão vivos", dar um cutucão psíquico com o sangue primário, e partir. Ele não pareceu reparar no livro destruído.

Um dia Ed anunciou que eram vampiros há dois meses. A declaração não foi o suficiente para tirar Yuri da letargia. Sua pergunta seguinte foi:

— Você está com sede?

— Ed, pelo amor de Deus, eu não como nem bebo nada há dois meses.

— Você quer beber sangue humano?

A pergunta foi estranha. Yuri olhou pra ele, e o que viu foi um Ed, o nerd, mais magro e menos sorridente do que o que se lembrava. Um Ed, o nerd, que parecia estar fazendo não uma pergunta sobre suas disposições morais, mas uma proposta. Yuri engoliu em seco.

— Quero.

Ed assentiu, e indicou a porta. Como mágica, Yuri ouviu o barulho de uma vizinha saindo do apartamento no mesmo corredor e se aproximando da porta deles conforme rumava para o elevador. Yuri se aproximou da porta. Ed ergueu a mão, fazendo uma contagem regressiva.

No zero, Yuri abriu a porta, e Ed puxou a mulher para dentro. Mordeu o pescoço dela antes que ela pudesse sequer processar o que havia acontecido, e o choque a fez desmaiar. Poucos segundos depois, Ed a empurrou na direção de Yuri.

— Só um pouquinho. A gente não tem onde esconder um cadáver.

Yuri a mordeu, e não foi capaz de largar. Só o fez ao sentir uma faca de cozinha no pescoço.

Muito lentamente soltou a vizinha, e se afastou da porta. Quando estava do outro lado do apartamento, Ed largou a faca. Se encararam.

— Desculpa? — Ed perguntou, hesitante.

Depois de alguns segundos sem saber o que fazer, Yuri assentiu e disse, baixinho:

Obrigado.

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A vizinha não se lembrou de ser atacada por vampiros. Melhor ainda, Ed roubara o celular dela, e Kaede deixara um carregador para trás.

Alimentado, Yuri sentia o sangue primário de Yukio enfraquecer, e olhar pra Ed era muito menos incômodo. Voltaram a conversar. Mais três meses se passaram, e a sede voltava a fragilizar os nervos dos dois. Ed pediu uma pizza. Falou que estava com a perna quebrada, e que o entregador precisaria subir até o apartamento deles. Devolveram o pobre homem com um litro de sangue a menos, e uma nota de cinquenta reais amarrotada no bolso.

O erro foi não pensarem no que fazer com a pizza.

Quando Yukio os visitou dois dias depois, o segunda-classe parou, estranhando alguma coisa no ambiente.

"Não tem como ele sentir o cheiro da pizza, tem?"

Assim que perceberam que havia uma prova do crime extremamente aromática nas premissas, os dois haviam enfiado a pizza no congelador. Por que um apartamento de vampiros tinha uma geladeira ligada era um mistério, mas pelo menos serviria para alguma coisa. Deixaram as janelas e a porta aberta para ver se o cheiro saía, e lá pela hora do amanhecer juravam que havia funcionado.

Yukio caminhou até o meio da sala e pegou o panfleto da pizzaria misturado com papéis aleatórios.

— Isso é novo.

Yuri tentou manter uma expressão neutra, mas Ed tinha uma cara muito óbvia de quem guardava um segredo. Yukio olhou de um para o outro e respirou fundo.

— Yuri, me conte o que vocês fizeram.

A ordem foi acompanhada por um reforço psíquico avassalador. Yuri abraçou o próprio corpo e sentiu as unhas, agora mais afiadas do que eram antes, começando a se afundar na carne. Se tivesse a quantidade normal de sangue nas veias, teria sangrado, mas o sangue do entregador de pizza já havia acabado. O sangue primário de Yukio não era como coceira normal, não passava com unhadas e arranhões. Contou a ele sobre o entregador de pizza.

— Parece que eu subestimei vocês. Eu acho que vou ter que enfatizar que nenhum de vocês vai beber sangue humano enquanto o outro estiver vivo. Terminem isso logo, a minha paciência não é infinita.

O sangue primário de Yukio atacou os dois com tanta força que por dias eles não se sentiam capazes de sentar ou segurar objetos. Tudo incomodava, tudo virava um parasita rastejando sob suas peles, tudo era como uma enxaqueca. Nenhum dos dois sabia disso ainda, mas para manter esse nível de compulsão sobre eles Yukio também estava se desdobrando, e precisava se alimentar mais para compensar.

No fim, Yuri sentia que ia enlouquecer. Não conseguia mais julgar se Ed parecia bem ou não, pois olhar pra ele o fazia querer arrancar o coração do colega. Pelo canto dos olhos via Ed sentado no chão, virado para a janela, mas sem estar de fato numa altura que pudesse enxergar através dela, balançando pra frente e pra trás.

Isso durou vinte e oito dias, quando Ed finalmente disse:

— Yuri, eu não quero te matar.

A voz dele estava rouca. Yuri tentou dizer que também não queria matá-lo, mas as palavras não saíam. Ed se virou pra ele, e Yuri voltou a si o suficiente para perceber que o outro estava péssimo. Provavelmente ele também estava. Mais pálido do que jamais fora, os lábios completamente descorados e olheiras profundas, Ed sorriu. As pontas das presas acabaram aparecendo.

— Eu não vou te culpar por nada que acontecer.

Os olhos de Yuri ardiam, mas não haviam lágrimas para sair.

Ed se virou, jogando alguma coisa entre os dois. A faca de cozinha atingiu o chão com estrépido. Yuri sequer percebera que Ed estivera com ela por sabe-se lá quanto tempo. Ed provavelmente poderia tê-lo matado, mas de alguma forma mantinha o controle sobre si mesmo.

A próxima coisa da qual Yuri se lembrava era da cabeça de Ed quase arrancada, apenas uma faixinha de pele evitando que caísse completamente, e de estar debruçado no pescoço dele bebendo com desespero. Sangue de vampiro era estagnado e fraco perto do sangue humano, mas qualquer coisa era melhor do que lidar sozinho contra a sede e as ordens de Yukio. Continuou bebendo mesmo quando não parecia que havia mais sangue para sair, conforme a ordem mais extrema de Yukio rescindia.

Havia matado Ed.

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Ao terminar sua história, Yuri se sentia sem chão com os olhares piedosos dos outros vampiros. Nathalie chegou a estender a mão — bem devagar, para não assustá-lo — e esfregar seu braço de maneira reconfortante.

— Eu sinto muito, Yuri.

— Eu matei ele, não era pra vocês "sentirem muito", era pra vocês me odiarem!

Daisuke balançou a cabeça.

— Yukio forçou a sua mão.

Não havia como discutir com isso, mas Yuri não se sentia muito consolado pelo fato.

Depois disso a conversa não recuperou a jovialidade. Daisuke pensava em matar Yukio. O outro vampiro tinha o dobro da sua idade, mas não devia ser uma luta impossível. Exceto que ele era o preferido de Akihito, e as chances de retaliação eram altas. Se Haruka não o punisse ela mesma, era provável que permitisse que Akihito o punisse, no máximo com um pedido de “só não o mate, ainda não me cansei dele, está bem?”. Nathalie também guardava uma expressão tempestuosa, e entre o silêncio dos dois, Jonas não ousava dizer nada.

— Yuri. — Daisuke disse finalmente. — Você acredita em mim quando eu digo que nós somos amigos?

Um pouco hesitante, ele assentiu.

— Então acredite em mim quando eu digo que isso não me faz te odiar, e que eu ainda quero você com a gente quando nos reunirmos de novo.

Grato, Yuri assentiu.

A reunião daquela noite estava encerrada.

O próximo capítulo de “Técnicas Sanguíneas: Memento mori” será publicado dia 27/04, e nele descobriremos que talvez almas sejam reais.

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