- Crônicas do Bloco de Notas
- Posts
- Técnicas Sanguíneas — Capítulo 52
Técnicas Sanguíneas — Capítulo 52
No qual os amigos se reúnem mais uma vez
Tempo estimado de leitura: 16 minutos
Estamos chegando perto do final da temporada, e eu espero que vocês tenham curtido a jornada até aqui. Eu usei essa temporada para colocar várias peças no tabuleiro que vamos usar na temporada 4. Aliás, falando sobre a temporada 4… eu já falei qual vai ser o nome dela? A temporada atual se chama “Memento mori”, e a próxima se chamará “Carpe diem”. Alguma ideia de porque eu escolhi os títulos nessa ordem específica?
Sem mais delongas, deixo vocês com o capítulo de hoje.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 52
No qual os amigos se reúnem mais uma vez
Dessa vez os amigos haviam se reunido em um clube. Tecnicamente a entrada era paga, mas bastava um pouco de Influência para convencer os seguranças na porta que eles já haviam pago. A ideia partira de Nathalie, e o fato dela já estar instalada em uma mesa quando Daisuke chegou indicava que ela também aprendera a usar a Influência. Quis perguntar sobre o fato, mas antes que pudesse se sentar o vento virou, trazendo o cheiro fraco de vampiros de terceira e quarta-classe.
— Vocês chegaram cedo hoje. — disse em voz alta, sequer esperando para fazer contato visual.
— Yukio mandou eu não me atrasar. — Yuri respondeu, falando rápido, num misto de vergonha e derrota.
Daisuke e Nathalie assentiram. Jonas não disse nada. Ele havia chegado no horário da última vez, então o comentário de Daisuke se aplicava apenas a Yuri.
— Eu pedi para trazerem uma torre de chope. — Nathalie disse, o que fez os dois recém-chegados gemerem e Daisuke rir.
Divertida com a reação deles, Nathalie continuou.
— Eu não vou fazer vocês beberem, mas seria bom vocês beberem alguma coisa. O DECEPA de vez em quando verifica esse lugar, e vocês sabem que verificar quem não está bebendo nada é procedimento padrão.
— Eu estava me perguntando sobre isso. — Daisuke disse. — Se você estava a fim de se arriscar, ou se tinha certeza que não teria uma patrulha aqui hoje.
— É muito ruim se for a primeira opção?
Daisuke deu de ombros, mas percebeu que Yuri e Jonas ficaram alarmados.
— Vocês já tiveram algum encontro com o DECEPA desde a transformação?
Ambos sacudiram a cabeça. Jonas abriu um sorrisinho minúsculo.
— Eu nunca tinha reparado que os vampiros não sabiam o nome do departamento. Eles sempre dizem “os caçadores”, só descobriram que a unidade tinha um nome quando me sabatinaram sobre as operações dos policiais.
— Seu criador fez isso? — Jonas assentiu, e Daisuke se voltou para Yuri. — E o Yukio?
— Ele perguntou o que os caçadores tinham me ensinado sobre vampiros. Ele só foi ouvindo e assentindo, mas quando eu cheguei na partes das gangues comandadas por puro-sangues ele me corrigiu falando que os únicos vampiros puro-sangue na cidade eram Akihito, Haruka e Agonglô. E também… — Yuri agarrou alguma coisa sob a camisa, bem na altura que o pingente de identificação ficaria.
Daisuke ia perguntar sobre a dog tag, mas Jonas perguntou, chocado:
— Peraí, como assim só Agonglô, Akihito e Haruka? E os outros?
“Céus… ninguém ensinou nada para ele?” Quando Jonas havia dito que quarta-classes eram descartáveis, Daisuke não imaginara que também tinham sua educação negligenciada.
“Aliás, será que os terceira-classe do Agonglô sabem o suficiente pra ensinar os quarta-classe?” Não tinha como ter certeza do quanto a informação fluía em cada gangue.
Yukio ficou responsável pela explicação sobre vampiros de primeira-classe, a herança mista de Weiss e o fato de Constantino ser um segunda-classe. Jonas ficou devidamente chocado.
— Fica pior. — Nathalie garantiu. — A… minha criadora… era humana até quinze anos atrás. Ela só se transformou espontaneamente durante um ataque de vampiro. Do Akihito. Então se ele não tivesse vindo pra nossa cidade, talvez a A… talvez ela ainda fosse humana.
O tom de Nathalie era ferino, mas Daisuke imaginava que ela usava a mordacidade para esconder as recriminações e a vulnerabilidade. Passar por uma situação ruim inevitável era uma droga, mas existia um nível totalmente novo de frustração quando a situação ruim era perfeitamente evitável, se não fosse pela interferência de uma pessoa ambiciosa e mesquinha.
Jonas ainda tinha perguntas sobre vampiros de primeira-classe.
— Mas qual é a diferença entre eles e os puro-sangues?
Essa Yuri não sabia responder, então olhou com expectativa para Daisuke.
— Até onde eu entendi… nada. Afinal, eles também podem ter filhos, técnicas sanguíneas… — antes que ele pudesse chegar em “só o que falta é uma árvore genealógica de vampiros que se acham melhores que os outros”, Jonas exclamou:
— Puro-sangues tem filhos?!
Ninguém tinha realmente ensinado nada pra ele. Podia suprir essa falha na educação do ex-colega, mas não estava se sentindo didático. Decidiu mudar de assunto com um pouco de sensacionalismo.
— Tem. Inclusive eu acho que a Haruka e o Agonglô podem estar a meio caminho pra isso.
Várias interjeições teatrais de surpresa. Era esse tipo de fofoca que tornava as noites menos longas e a eternidade tolerável. Daisuke contou a eles sobre as saídas de Haruka e Agonglô, mas se ateve aos detalhes que qualquer subordinado de Akihito com um par de olhos poderia ter notado: que ele a convidara para a temporada da ópera, que os dois saíam juntos várias vezes, que ela sempre se vestia de forma cuidadosa nessas ocasiões. Acreditava que Haruka realmente apreciava as saídas, mas também tinha plena noção de que ela as usava para coisas da própria agenda. Principalmente conversar com ele longe dos ouvidos de Kim, e uma cortina de fumaça para despistar Akihito em geral, mas suspeitava que ela queria alguma coisa de Agonglô. Apoio quando se afastasse de Akihito, talvez?
Depois disso, os portões da fofoca foram abertos. Nathalie contou das várias lojas noturnas que andara visitando. Conseguira conversar com membros de quase todas as gangues, exceto pela família de Constantino, que parecia fugir deliberadamente de qualquer interação. Yuri contou uma notícia velha, porém interessante, sobre a redistribuição de bens dos vampiros quando alguém era morto numa briga de gangues. Após o confronto entre Wilson e Akihito, Yuri herdara as camisas xadrez de um dos terceira-classe sêniores de Yukio, enquanto o outro — por ser mais velho e estar nas boas graças de Yukio — herdou um tablet.
— Você gosta de camisas xadrez? — Nathalie perguntou.
Yuri abriu a boca para responder, mas travou. Os outros três o olharam com expectativa, afinal não era uma pergunta tão difícil. Ele respirou fundo e coçou um braço, sem jeito.
— Eu… o Ed gostava de camisas xadrez. Elas me lembram dele.
Parecia um bom motivo para ter sentimentos conflitantes sobre uma peça de roupa, e Nathalie inclinou a cabeça para Jonas, dando a entender que era a vez dele de compartilhar uma fofoca.
— Aparentemente, depois do acordo de livre circulação, tem um pessoal da minha gangue que sempre passa no território do Weiss ver se as cerejeiras já floriram. É muito engraçado ver esses marmanjos que são vampiros há vinte, trinta anos, ficando empolgados discutindo botões de flores. Eles tem um bolão pra ver quem acerta o dia certo que elas vão desabrochar…
A fala de Jonas foi perdendo a força. A mudança de assunto não fora o suficiente para Yuri voltar a ficar confortável, pela forma como ele tamborilava os dedos e ajustava a postura a cada dois segundos. Num grupo de amigos humanos esse comportamento seria notado, mas seria no máximo uma fonte de distração, uma frase deixada na metade porque alguém parou para observar a movimentação do outro. Num grupo de vampiros era muito pior, cada movimento de um dos integrantes da conversa fazia os outros três reajustarem a própria postura, recalcularem rotas de fuga, tensionarem para a luta. Jonas perdeu o fio da meada, e observou Yuri com expectativa.
Como Yuri não parecia disposto a falar, Daisuke ergueu as sobrancelhas.
— Yuri, o que foi?
Gotículas de suor começaram a se formar na testa dele, e ele tremia. O terceira-classe respirou fundo e engoliu em seco.
— Eu matei o Ed.
A declaração saiu de Yuri como se ele estivesse engasgando com ela e finalmente tivesse conseguido cuspir um corpo invasor. Era compreensível que os outros não soubessem o que dizer, mas depois de vários segundos de silêncio tenso, Daisuke tomou a palavra:
— Explique.
Apesar do nervosismo óbvio, Yuri estava aliviado com a ordem. O segredo o estava corroendo por dentro.
— Depois da operação no galpão, o Yukio transformou a gente lá mesmo. Eu só me lembro de estar com o pescoço quebrado, mas me agarrando à vida. Eu lembro de ficar contando os segundos, porque eu não achava que ia durar um minuto inteiro, mas de perder a conta toda hora porque, bem, naquela situação eu não conseguia me concentrar. E então… o sangue do Yukio começando a agir em mim. Eu voltando a sentir meu corpo, as coisas voltando para o lugar certo… eu mal tinha recuperado os movimentos quando ele falou “levante, fique quieto e me siga”. E foi o que eu fiz.
#
A experiência de quase morte e subsequente transformação deixava as pessoas um tanto confusas. Yuri só se sentiu voltar a si quando Yukio já os havia levado ao seu apartamento e apresentado seus dois terceira-classe sêniores. Com o raciocínio, as conclusões se seguiam em sequência rápida: a operação fora uma armadilha; havia sido transformado em vampiro; essa coisa incômoda que sentia era sede. De sangue. Yukio enunciava as regras: estavam proibidos de falar com suas famílias e com qualquer humano que conheciam de antes da transformação, estavam proibidos de brigar com os membros da gangue de Akihito, estavam proibidos de contar sobre vampiros para qualquer humano. O sangue primário de Yukio causava em Yuri uma sensação de irritação, como se suas roupas pinicassem, como se um mosquito não apenas o tivesse mordido, mas ainda zombasse dele circulando ao redor de sua cabeça com um zumbido persistente. Queria falar alguma coisa, mas sempre que contemplava a noção, a irritação parecia piorar, fazendo cada centímetro da sua pele coçar.
— Vocês têm alguma pergunta?
Quando Yukio disse isso, o peso que compelia Yuri a ficar em silêncio desapareceu. Percebeu que não estava respirando, e sorveu o ar por costume, ficando horrorizado com o quanto o efeito era diferente de quando era humano. Enquanto tentava fazer sentido da situação, uma pessoa ao seu lado tomou fôlego e, com muito mais calma do que Yuri imaginava possível, falou:
— Eu tenho uma pergunta. Por quê?
Só então reparou em Ed, o nerd.
Ed ainda estava sujo de sangue. Um vampiro rasgara sua garganta. Será que fora o próprio Yukio, ou outro?
Yukio olhou para seu mais novo terceira-classe por um longo tempo. Não dava pra decifrar uma emoção específica daquele olhar. No fim, ele disse simplesmente:
— Porque eu posso. Na verdade, eu não quero dois ex-caçadores de vampiros trabalhando para mim. — Ele se inclinou para Ed, chegando a se apoiar no ombro do policial para cochichar em seu ouvido, mas falou em volume perfeitamente normal. — É por isso que você vai matar o seu colega.
Yuri viu Ed estremecer. Os dois se encararam. Apesar da expressão aflita, Ed sacudiu a cabeça numa negativa quase imperceptível. "Não", ele dizia. "Nunca". E Yuri acreditava nele. Se assustou quando Yukio apoiou a mão em seu ombro, se inclinando para ele da mesma forma.
— E você… vai matar ele.
Antes que Yuri processasse a frase racionalmente, já sentia um milhão de coisas acontecendo em seu corpo e em sua cabeça. Um alvo pintado em Ed, uma sensação avassaladora de que o colega policial… ex-policial? ex-colega? era tão confuso… deveria morrer. Não era tanto uma "vontade" de enfiar as garras… garras? Unhas?… de rasgar a garganta de Ed, quanto era uma "necessidade". Ele não cedeu. Claro que não cederia! Tinha orgulho de não sucumbir ao impulso… mas o preço a pagar foi instantâneo.
Se a ideia de falar quando Yukio o mandara ficar em silêncio era uma irritação amorfa, o que sentia agora era como se o ar fosse uma lixa raspando contra sua pele. Suas roupas queimavam. Seus nervos protestavam como se tivesse areia entre as juntas. Yuri queria lutar contra a sensação, mas cada vez que fazia isso parecia que a ideia de matar Ed crescia em sua mente, criando raízes milímetro por milímetro.
"Não!"
Com força de vontade extrema, Yuri conseguiu tornar a sensação de irritação ignorável. E então veio a sede. Mais do que uma sensação na garganta, sentiu o estômago vazio e as veias secas. As pernas tremeram, e acabou estendendo a mão para se amparar contra a parede.
— Eu imaginei que isso poderia acontecer. — Yukio disse. Observava os dois com interesse. — Vocês estão proibidos de sair para caçar. Vocês estão proibidos de deixar o apartamento enquanto um não matar o outro. — Cada ordem era pontuada com aquela sensação de ataque aos nervos — O vencedor vai poder matar a sede.
E Yukio saiu, deixando seus dois terceira-classe para se destruírem mutuamente.
No próximo capítulo, Yuri continua seu relato.
Faltam 3 capítulos para o fim da temporada.
Reply