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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 51
No qual a casa de Haruka fica pronta
Tempo estimado de leitura: 13 minutos
Faltam 5 capítulos para alcançarmos o fim da temporada, contando com o de hoje. Já é um bom momento para começar a fazer teorias, expressar os seus desejos para a próxima temporada, e tudo o mais… apesar de que eu ainda tenho pelo menos uma revelação que eu espero que seja bombástica até o fim da temporada 🙏

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 51
No qual a casa de Haruka fica pronta
Sentado diante de Haruka, Daisuke observava sua criadora folhear catálogos de móveis.
Haruka mandara Kim buscar roupas na lavanderia a seco. Mais uma vez, roupas que não estavam prontas. Tudo para que ele percebesse o favoritismo óbvio em relação a Daisuke. Com qual objetivo? Daisuke não sabia. Talvez ela quisesse que Kim o atacasse e usasse isso como desculpa para eliminá-lo de vez, ou apenas se divertisse assistindo a briga dos dois.
Isso também dava a ela a oportunidade de falar com Daisuke a sós — ou pelo menos tão a sós quanto poderiam ficar numa casa onde as paredes tinham ouvidos, e todos os ouvidos se reportavam ao irmão dela. Haruka se levantou, e retirou uma caixa de joias do armário. Não havia joias lá dentro, mas alguns maços de notas enroladas com capricho.
— Esse é o seu teto de gastos. — ela pegou o celular, e indicou as fotos que Daisuke lhe enviara durante o dia — Você comprará estes para mim. Para a sala, eu quero a aproximação mais próxima do design de Luca. Para a cozinha, o que quer que você achar apropriado, na cor cinza. Já para a sua mobília… nada muito escuro ou muito claro, mas fora isso, o que quer que você consiga encaixar no orçamento. Não esqueça de levar algo para Kim também.
Daisuke não tinha ideia de quanto dinheiro estava enrolado naqueles três maços, mas tinha quase certeza que Haruka não era idiota. Ele havia enviado as etiquetas de preço junto aos itens, e não parecia do feitio dela lhe enviar para comprar toda a mobília da sua casa nova com uma quantidade insuficiente de dinheiro.
“Meu Deus, eu me sinto um mafioso.” A polícia sempre considerara os grupos de vampiros como gangues, e sabiam que haviam atividades ilegais envolvidas para manter centenas de não-cidadãos com acesso a moradia e roupa lavada, mas andar com mais de dez mil reais em dinheiro vivo no bolso era praticamente um nível de máfia de desenho animado. Só precisava de uma maleta e um terno listrado.
— Eu normalmente não mandaria você sair duas vezes seguidas, mas eu tenho pressa. — Ela não usava as palavras “de dia” porque se Akihito começasse a mandar espiões sob o sol, nem mesmo Haruka, sendo puro-sangue, conseguiria detectá-los.
Daisuke engoliu em seco e assentiu.
— Você beberá meu sangue. Eu não quero empecilhos enquanto você estiver cumprindo sua tarefa.
— Haruka…
A vampira o fulminou com o olhar, repreendendo-o pela interrupção.
— Você prefere que eu não te alimente?
— Não é isso! — Daisuke sentiu uma pontada de pânico. Quando achava que começava a ser menos suscetível à ameaça do exílio, seu próprio corpo disparava alarmes implorando para nunca permitir que isso acontecesse novamente. — Eu vou fazer o que você mandou. Sempre. Perdão pela interrupção, eu só… queria fazer um pedido.
— Hmm. — Haruka se acomodou melhor, pronta para ouvi-lo. Gostava quando ele pedia coisas. Isso a lembrava do nível de controle que tinha sobre a vida dele.
— Eu… eu queria me encontrar com meus amigos de novo. O grupo todo. Talvez o Yukio não esteja tão disposto a liberar o Yuri depois de… você sabe. — Havia uma probabilidade considerável que a mudança de Haruka colocasse a gague de Akihito em polvorosa. Se houvesse hostilidade entre os irmãos, podia dar adeus a Yuri.
— Entendo. Nesse caso, vocês devem marcar sua reunião logo. Proponha para eles quinta-feira. Se necessário posso interceder junto a Alana pela sua amiga Nathalie.
Daisuke assentiu. Quando tornou a falar, foi num tom de voz mansinho de quem não queria assustar o animal selvagem diante dele.
— Obrigado, Haruka. Eu estou pronto agora. Você pode me alimentar?
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Se fosse honesto consigo mesmo, Daisuke diria que queria ter bebido mais sangue antes de encarar o retorno às lojas de móveis, mas Haruka nunca o havia deixado beber três doses, e não achava que era sábio testar esse limite logo depois de pedir um favor. Os trinta mil em dinheiro — havia parado para contar as notas antes de sair — pareciam queimar em seu bolso como se carregasse um mini sol, e estava ansioso para gastá-los apenas para não ter que carregá-los por aí. Por sorte, com as orientações de Haruka, não precisava passar em cada loja, indo direto nas que tinham os itens que sua criadora especificara. Uma cama de casal e armários de cerejeira, da loja de antiguidades. Um sofá preto elegante, novo, mas de uma loja com preços medianos. Uma cristaleira, espelho e móvel para por embaixo do espelho, todos da loja “vintage”. A cozinha nova, mas totalmente de baixo orçamento, já que duvidava que Haruka passaria mais do que alguns minutos lá para inspecionar a casa nova. Do brechó obteve um conjunto de mesa e cadeiras para a sala.
Daisuke:
Plantas reais ou de plástico?
Haruka:
Reais.
A prontidão da resposta era um pouco assustadora, mas ele tinha certeza que estava seguindo as instruções de Haruka corretamente, então não devia ter o que temer. Separou uma quantia para passar em uma loja de jardinagem e acrescentou na sua lista de tarefas “aprender a cuidar de plantas”, já que era impensável que Haruka sujasse as próprias mãos de terra, ou que sequer segurasse um regador.
O que sobrou parecia insuficiente para mobiliar dois quartos. Era tentador comprar um guarda-roupa inteiro para si e deixar Kim apenas com uma cama, mas raciocinou que 1) não tinha roupas o suficiente para encher um guarda-roupa inteiro, e 2) Haruka poderia se ofender se ele tomasse a iniciativa em se declarar superior a Kim. Isso era, afinal, prerrogativa dela. Comprou uma cama com gavetas e uma escrivaninha para si, e uma cama comum e uma cômoda para Kim. Escolheu um tom mais escuro para os móveis dele, mas tomando cuidado para não esbarrar nas restrições de cor impostas por Haruka.
E finalmente era hora de pegar um ônibus para cruzar a cidade e chegar a tempo de receber a primeira entrega de móveis, porque agendara com todos os vendedores para aquela mesma tarde. Se todos chegassem no horário, não teria que lidar com entregas simultâneas, mas mesmo que um acabasse atropelando o horário do outro, o caos era preferível do que ter que sair um terceiro dia. A cada móvel instalado Daisuke mandava fotos para Haruka, e ela respondia prontamente, mandando colocar alguma coisa mais para a direita ou alinhada com a parede.
Os últimos montadores foram embora às cinco da tarde, e o sol já começava a baixar. Daisuke se lembrou que ainda precisava comprar as plantas. A essa hora a caminhada até a loja de jardinagem não seria tão ruim, mas o cansaço acumulado do dia — de dois dias — começava a cobrar seu preço. Mandou a Haruka fotos das prateleiras de trepadeiras, suculentas, vasos com árvores de pequeno porte e até algumas quinquilharias como fontes e pedras decorativas.
Daisuke:
Quais você quer?
Haruka devolveu a imagem com suas escolhas circuladas. Aparentemente ela não ligava muito para suculentas, mas adorava qualquer planta que pudesse ficar no alto, suas folhas despejando verdejantes em direção ao solo. Daisuke ficou levemente decepcionado por ela não ter escolhido nenhuma primavera. Não tinha certeza se primaveras sequer eram adequadas para ambientes internos, mas a casa de Haruka tinha um jardim.
Haruka:
Eu vou sair para caçar hoje. Voltarei tarde.
Ordenei que Kim esperasse no meu quarto. Vá para lá quando voltar, e espere também.
Se ele não estiver onde eu mandei, me ligue imediatamente.
Daisuke pensou em responder com um joinha. Depois deu um sorriso sem humor, rejeitando a ideia como um pensamento potencialmente suicida.
Daisuke:
Certo.
Farei isso.
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Quando Daisuke parou diante do quarto de Haruka, ele estava esperando encontrar o cômodo vazio e ligar para sua criadora para assinar a sentença de morte de Kim. No fim, não foi necessário. Kim estava lá, e foi um dos raros momentos em que Daisuke o viu com o celular que Haruka lhe dera na mão.
Para sua surpresa, Kim o interpelou.
— O que está fazendo aqui?
— Haruka me mandou esperá-la.
— Você a viu hoje?
Daisuke tirou o telefone do bolso e apontou para o aparelho, revirando os olhos. Esse foi todo o diálogo que tiveram por cinco horas seguidas.
Tentou usar esse tempo para alguma coisa produtiva. Mandou uma mensagem para Nathalie falando que Haruka o liberara na quinta-feira, mas ela não respondeu. Ficou em dúvida se devia mandar uma mensagem para Yukio antes da confirmação dela.
“Se a Nat não puder, eu levo o Yuri para passear”, decidiu. Afinal, o objetivo de reunir os ex-policiais antes da mudança de Haruka era para que se vissem antes da possível retaliação de Akihito pela partida da irmã. Não sabia qual seria o nível da briga entre os irmãos vampiros quando Haruka partisse, mas duvidava que Akihito fosse abrir mão do controle sobre a vida dela tão fácil. Talvez esse fosse o momento para ele ativar a técnica sanguínea sobre a qual Daisuke teorizava.
A certa altura da noite Daisuke se perguntava se as famílias puro-sangue tinham algum tipo de registro das técnicas sanguíneas que já haviam existido. Até agora só conhecia duas, a de Haruka e a de Alana, e as duas eram tão diferentes entre si que era impossível saber o que esperar de um terceiro ponto na curva. Queria ter descoberto algo mais sobre a técnica de Wilson, talvez isso lhe desse ideias. Foi nessa hora que Haruka chegou.
O rosto dela estava corado do sangue de outras pessoas.
— Boa noite, Haruka.
— Bem vinda de volta, senhorita Haruka. — Daisuke e Kim falaram quase ao mesmo tempo. Daisuke escolheu ignorar o outro, mas tinha a nítida impressão que Kim tirara um instante para lhe lançar um olhar azedo.
Haruka abriu um sorriso enorme. Como uma criança no Natal, só que predador. Ser recebida pelos seus dois criados solícitos parecia o prenúncio de como as coisas seriam na sua nova casa.
— Venham. — ela disse. — Eu posso alimentar vocês dois hoje.
No próximo capítulo, os amigos se reúnem mais uma vez.
Faltam 4 capítulos para o fim da temporada.
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