Técnicas Sanguíneas — Capítulo 46

No qual conhecemos Yuri e Jonas.

Tempo estimado de leitura: 19 minutos

Ontem foi meu aniversário, de presente eu quero saber o que vocês estão achando da história até agora.

No último capítulo fomos apresentados a mais um conceito da construção de mundo dos vampiros: feitiços sanguíneos. Enquanto “técnicas sanguíneas” são um poderzinho tipo X-Men com o qual o vampiro nasce, “feitiços sanguíneos” são tipo magias com rituais. Na minha cabeça a distinção é clara, mas acho que os nomes não ajudam.

Banner com fundo degradÊ preto em cima e azul em baixo, mostrando o título em vermelho "Técnicas Sanguíneas, parte 3, memento mori, de A C Dantas" com vários espinheiros no fundo.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.

Capítulo 46

No qual conhecemos Yuri e Jonas

A pintura da casa de Haruka precisou de mais de uma noite para ser completada, mas quando terminou, Daisuke se sentiu feliz com o resultado. Brincou por um segundo com a ideia de ter um trabalho honesto: “Daisuke Koyama, pintor noturno. Para quem precisa de uma demão de tinta fora do horário comercial.” Será que se a Delegacia de Contenção de Eventos Paranormais não estivesse vigiando constantemente, vampiros tentariam se empregar no McDonald’s ou abrir salões de cabeleireiro 24 horas?

“Você só fica imaginando vampiros bonzinhos e trabalhadores porque agora é um deles.” Uma vozinha em sua cabeça recriminou. Decidiu que ela falava com a voz de Charlotte.

Para parar de pensar nisso, fotografou as paredes pintadas de cinza clarinho de acordo com as instruções de Luca, e mandou as fotos para Haruka. Se perguntava se ela já tinha se decidido a respeito dos móveis. Como Haruka não gostava de ser questionada sobre planos, escolheu outra abordagem.


Daisuke:

Qual vai ser o meu quarto?

Deitou-se no chão, contemplando o teto branco. Não queria voltar para a mansão, mas também não sabia se era uma boa ideia ficar se demorando.

Quando o celular vibrou, achou que estava recebendo uma mensagem de Haruka lhe dando uma resposta, ou pelo menos instruções. Não era nenhum, nem outro.

Número desconhecido:

Ei, é a Nat. Consegui um telefone novo.

Daisuke:

Você sabia o meu número de cor?

Número desconhecido:

Pare de ficar se achando. (risos)

Eu rabisquei seu número na palma da mão antes de entregar o celular.

Como faziam os astecas.

Vamos nos encontrar.

Daisuke:

Os outros dois estavam com o Yukio. Só o Yuri sobreviveu.

Podemos reunir todo mundo agora.

Durante a pausa longa antes da resposta de Nathalie, Daisuke aproveitou para salvar o contato dela.

Nathalie

Ok, mas onde?

Eu tinha pensado nas lanchonetes de sempre, mas o layout das mesas seria um pesadelo.

Daisuke se lembrou de toda a tensão do primeiro encontro com Nathalie, e tentou imaginar como seria se tivesse que se sentar ao lado de outro vampiro num banco de lanchonete, um bloqueando o acesso do outro à saída. Definitivamente uma receita para o desastre.

Daisuke

Que tal a casa de chá?

Você gosta de lá, e tem mesinhas do lado de fora.

Nathalie

Boa.

Quer mirar no sábado que vem?

Eu digo pra – que a Haruka liberou você no sábado, você diz pra Haruka que – me liberou no sábado, assim elas argumentam menos pra deixar a gente sair?

Pela ausência do nome de Alana nas mensagens, era provável que Nathalie estivesse mandando mensagens da rua. Dentro de casa ela podia dizer o nome de sua criadora.

Daisuke

Você não pode dizer essas coisas por mensagem.

É evidência. (risos).

O riso morreu em seus lábios quando recebeu uma mensagem de Haruka.

Haruka

O próximo ao meu.

De repente estava de volta a seus deveres de pintor e ajudante geral. Queria descobrir sobre os móveis.

Daisuke

Eu posso decorar como eu quiser, ou você já escolheu a mobília?

Haruka

Eu espero que você seja frugal em suas escolhas.

Quando se interessar por alguma coisa, me envie e eu lhe direi se aprovo.

Apesar do tom imperioso e a promessa de mais controle e julgamento sobre suas escolhas, Daisuke suspirou aliviado. Começava a entender como Haruka funcionava, e ela praticamente dissera para caçar móveis baratos. Quanto antes encontrasse mobília que atendesse aos padrões de Haruka, mais cedo poderiam abandonar a mansão de Akihito.

Não era apenas Haruka que o manipulava para conseguir o que queria.

#

Daisuke e Nathalie se encontraram no sábado, como haviam planejado. Chegaram na casa de chá antes, para garantir uma mesa e poderem conversar um pouco em particular antes que os outros dois chegassem. Como da outra vez, pediram chá.

— Não tão divertido quanto o absinto. — disse Nathalie.

— Não. Mas eu quero ouvir a fofoca inteira. Como assim “trocou o celular pelo Jonas”? Pra começo de conversa, como você descobriu onde o Jonas estava?

Nathalie riu.

— Eu sei que vai parecer chocante, mas… eu perguntei.

— Você só… parou um vampiro aleatório na rua e perguntou?

— Foi quase isso.

Ela contou sobre como passara a frequentar uma loja noturna. Escolhera uma que era popular entre vampiros, mais para ver se conseguia escutar fofocas e coisas do tipo. Afinal, também era uma ex-caçadora e não se sentia a vontade para simplesmente tentar se enturmar.

— E daí você acredita que um cara veio puxar conversa comigo?

— Puxar conversa tipo… com segundas intenções?

— Pois é!

— “Nem todo homem, mas sempre um homem”? — Daisuke repetiu o adágio, supondo que a abordagem fora incômoda.

Nathalie não concordou tão entusiasticamente quanto ele esperava. Ela parecia estar se decidindo sobre falar ou não alguma coisa, e no fim continuou:

— Bom, naquele dia eu decidi dar trela. Pensei que na pior das hipóteses ia ter um quebra-pau, e eu… eu não estava sentindo muito amor à vida. — Isso preocupou Daisuke, mas Nathalie estendeu a mão sobre a mesa e segurou a mão dele, dando um pequeno aperto para transmitir conforto. — Eu falei: apesar de tudo eu ainda acho que estou melhor. Às vezes eu penso essas coisas, mas agora passa.

— Certo. Mas você sabe que sempre pode me ligar.

Ela lhe lançou um sorriso breve.

— Obrigada. Mas onde é que eu estava?

— Conversa com segundas intenções em uma loja noturna.

— Ah, é. Então, conversa vai, conversa vem, eu falo que “eu matava gente como você para viver” — pausa para deixar Daisuke rir da declaração — ele pergunta “homens”, eu respondo “vampiros”, e tiro a minha identificação. “Primeiro Sargento Nathalie Escobar, Departamento de Contenção de Eventos Paranormais”

Ela tirou a plaqueta de identificação do DECEPA do bolso. Daisuke ficou surpreso, esperava que ela estivesse usando a corrente ao redor do pescoço. Ele próprio fez um gesto automático procurando a corrente que não estava mais lá. De repente percebeu que quando pediu que Hana cuidasse da dog tag, isso também fora uma ordem reforçada pelo sangue primário. Sacudiu a cabeça, se forçando a focar no presente. Poderia resolver isso depois.

— E qual foi a reação dele?

— A cara dele foi impagável. Mas quando ele se recuperou ele ficou tipo “então você é um deles”, e… depois eu até pensei que ele podia estar falando “eles” como os caçadores de vampiros em geral, mas na hora eu achei que tinha soado pessoal, e que talvez ele conhecesse um dos nossos. Então eu perguntei. E ele falou do Jonas. Um dos… co-criados dele? — Ela fez uma pausa para ver se Daisuke reconhecia o termo, mas também era novidade para ele — Enfim, se eu entendi direito, um terceira-classe que foi criado pelo mesmo segunda-classe, tinha transformado o Jonas. Eu perguntei se ele podia me colocar em contato com o Jonas, ou pelo menos com o co-criado dele, e ele pediu meu celular.

Essa história de “co-criado” quase fazia Daisuke querer aderir às nomenclaturas familiares de Constantino. Soava muito mais simples explicar relações dos terceira-classes dizendo que eles eram “irmãos” ou “primos” entre si.

Nathalie concluiu, num tom casual:

— Eu achei que ele estava falando do meu número, eu… prometa que não vai me julgar.

Daisuke guardou um silêncio respeitoso.

— Eu tinha até ficado lisonjeada, sabe? Mas no fim ele só queria o meu aparelho mesmo.

Era um pouco engraçado, e Daisuke se esforçou para manter o sorriso discreto, sem mostrar as presas. Não conseguia entender porque Nathalie iria se interessar pelo papinho de um vampiro, mas, até aí, ele próprio não era muito de flertar e se encontrar com pessoas. Queria saber mais, mas estava em dúvida do quanto era apropriado perguntar, e foi então que o ar mudou.

Os dois sentiram o cheiro levíssimo de um vampiro quarta-classe.

— Nathalie? Daisuke?

Jonas chegara. Era estranho vê-lo depois de quatro anos, agora um vampiro. Jonas sempre fora meio franzino, mas com o uniforme da polícia ele parecia maior. Como quarta-classe de Agonglô, suas roupas eram meio esfarrapadas e toda a linguagem corporal dele indicava que seu instinto de luta ou fuga estava perpetuamente configurado para “fuga”.

— Jonas! — Nathalie acenou, indicando que ele se aproximasse.

Jonas assentiu, e o modo deliberado como ele andava indicava aquele mesmo desconforto que Daisuke se lembrava de sentir das primeiras vezes que interagira com Nathalie depois da transformação. Ele caminhava devagar por entre as mesas, evitando fazer movimentos bruscos.

Nathalie indicou a cadeira ao lado dela. Haviam posicionado as cadeiras um pouco afastadas da mesa, garantindo que não ficariam tão colados um no outro.

— Eu estou feliz que você veio. — ela disse.

— Eu fiquei feliz pelo convite. — Jonas se sentou, ainda um pouco ressabiado. Daisuke notou o olhar dele voltando repetidas vezes para as xícaras sobre a mesa. Claramente ele não era do tipo que havia experimentado com bebidas humanas, e isso seria um bom tópico para conversa mais tarde.

“Só falta um tópico de conversa pra agora.” Daisuke pensou, amargurado. Queria ver Jonas e Yuri, mas não estava no mesmo estado de espírito solitário e amargurado de antes de reconectar com Nathalie, e parecia estranho tentar aplicar a mesma abordagem de perguntas e respostas e descobrir quais temas eram tabus. Depois de quatro anos, fazia sentido perguntar sobre como fora a adaptação para a vida de vampiro? Era como dar os pêsames por uma morte muito antiga, e ficar receoso de em vez de uma demonstração de empatia acabar sendo apenas um lembrete desnecessário.

O silêncio foi se alongando entre eles.

— Hmm. Vocês parecem bem. — Jonas disse.

Nathalie passou a mão pelo cabelo passado na máquina. Ainda tinha quantidades consideráveis de azul, mas não ocupava mais o couro cabeludo quase inteiro.

— Eu duvido muito.

Jonas deu de ombros.

— Eu também cortei o meu. Agonglô tem um código de vestuário para os terceira e quarta-classe.

De fato, o cabelo de Jonas costumava ser uma espécie de black power quadrado, mas agora estava bem mais curto, quase rente à cabeça. Menos brilhoso também. A pele marrom clara estava mais pálida — isso era esperado, dado o vampirismo — mas também não parecia muito saudável.

“Eles estão te alimentando direito?” era a pergunta automática para fazer nessas ocasiões, mas soava diferente quando se era um vampiro.

Ficaram mais alguns segundos em silêncio, mas antes que chegasse ao nível embaraçoso e desconfortável, os três ergueram a cabeça em sincronia. Outro vampiro havia se aproximado. Olharam ao redor, e um minuto depois Yuri também acenava e se encaminhava até eles.

— Desculpem o atraso. — ele disse, com um sorriso tímido. — Uau, faz… tanto tempo.

E isso de certa forma foi a permissão que eles precisavam para entrar no tópico sensível das respectivas mortes e transformações. Ainda ficaram um tempo em silêncio, mas dessa vez não era incômodo, apenas reflexivo.

Daisuke tomou a palavra, se dirigindo a Yuri:

— Yukio falou que tinha ficado com dois caçadores, e que você tinha sobrevivido, mas não disse quem era o outro.

O sorriso de Yuri desapareceu, e ele abaixou a cabeça.

— Ed, o nerd.

— Ah, não… — Nathalie murmurou. Todos ficaram abalados. Ed, o nerd, era praticamente o mascote do DECEPA. A maioria das pessoas não o entendia ou não o levava a sério, mas todos gostavam dele. Ele era animado, sincero, gentil. Inteligente, também. Muitas previsões matemáticas sobre a atividade de vampiros na cidade que se mostravam incrivelmente acuradas. Ele deduzira a existência de Alana! Ele ia para a linha de frente tão raramente que fora um choque quando ele se voluntariara para participar da mega operação no galpão de Akihito.

Com um sobressalto, Daisuke se lembrou de Salado começando a falar sobre as teorias de Ed, e parando abruptamente. Na época não percebera que era luto pelo colega caído. Ninguém pensara em contar a ele que Ed também havia sido uma baixa naquela noite fatídica.

“Merda, Charlotte, eu fiquei quase dois anos no porão da delegacia, e ele era meu amigo também. Ninguém nem pensou em me contar?”

Talvez fosse injusto culpar Charlotte, já que Salado também não dissera nada.

— Foi o Yukio? — Nathalie perguntou.

— Não. — Yuri se encolhia, tentando ocupar o mínimo de espaço, o que causava um efeito estranho, já que era o mais alto deles.

Nathalie adquiriu uma postura conciliadora.

— Tudo bem. Você não tem que falar sobre isso se não se sentir pronto. Acho que… todos nós passamos por vários perrengues nos últimos quatro anos.

Todos assentiram.

— Vocês… — Jonas começou a falar, mas se encolheu quando os três se viraram para ele. — Vocês sabem se nós fomos os únicos? Se, além de nós, e do Ed… mais algum dos nossos foi transformado?

Mesmo não tendo descoberto o que deixava vampiros bêbados, Daisuke deu um gole pensativo no chá antes de responder. Era o tipo de pergunta que pedia uma bebida.

— No total foram oito. Moxley estava com Weiss. Ele durou apenas alguns meses. Nando e Pietro estavam com a Alana. Quanto tempo eles duraram, Nat?

— O Nando… dois dias. Ele quis peitar a A… enfim, mesmo com o sangue primário. Às vezes eu queria ter tido a mesma coragem. E o Pietro… um mês e meio, talvez dois.

Um pouco de silêncio.

— E o Ed, quanto tempo ele durou?

Yuri abriu a boca para responder, então pareceu mudar de ideia, e no fim disse:

— Alguns meses também.

Os quatro ficaram pensativos. Não tinham como saber por onde os pensamentos de cada um estavam enveredando.

Quando o silêncio passou de um luto respeitoso para quatro vampiros inseguros sobre continuar uma conversa, Daisuke ergueu seu copo.

— A gente devia brindá-los.

— Com chá? — Nathalie deu uma risadinha, mas fez sinal para a garçonete, e perguntou a Yuri e Jonas o que eles gostariam de beber.

Ambos estavam surpresos demais para responder.

— A gente pode tomar chá?

Nathalie e Daisuke explicaram que bebidas normais não lhes faziam mal, apesar de também não saciarem a sede. Yuri aparentemente estava ciente do fato.

— Eu só não entendo qual é o sentido de beber algo que não mata a sede.

“Pra começo de conversa, ajuda você a não ser identificado imediatamente por caçadores…” Daisuke pensou, e se surpreendeu pela aspereza no próprio tom. No fim, foi Nathalie quem respondeu.

— É uma coisa humana de se fazer. Não perder toda a humanidade é importante pra mim. Fora que água com gás é divertida. As bolhinhas fazem cócegas.

— Eu gosto de milkshakes. Acho que é a textura. — Daisuke deu de ombros.

Quando a garçonete chegou, Nathalie pediu água para os quatro. Se Yuri e Jonas estavam indecisos, era melhor começar com o básico. O silêncio se estendeu até a água chegar, e Daisuke não tinha certeza se era um silêncio confortável ou não. Não era tenso, mas definitivamente era meio esquisito, com nenhum dos quatro sabendo o que dizer.

E então a água chegou, e Daisuke ergueu seu copo.

— Aos amigos ausentes: que exista uma pós vida mais legal que essa, e eles estejam descansando agora. E aos amigos presentes também: que eles continuem presentes.

Na pŕoxima semana não teremos capítulo de Técnicas Sanguíneas.

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