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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 45
No qual Haruka e Agonglô mencionam assuntos indiscretos.
Tempo estimado de leitura: 14 minutos
Semana que vem é meu aniversário, então vou deixar casualmente esse link da minha lista de desejos de coisinhas da casa.
Acho que o capítulo 45 também é um bom lugar para avisar que a temporada atual acaba no capítulo 55 — pelas minhas contas isso será em maio.
Apreciem o capítulo de hoje.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 45
No qual Haruka e Agonglô mencionam assuntos indiscretos
Haruka voltou a usar Kim como motorista para que Daisuke tivesse tempo de ir cuidar das reformas da casa sem se preocupar em ser visto. Talvez ocasionalmente ele precisasse despistar Yukio, mas agora que finalmente aprendera a melhorar seus sentidos com magia sanguínea, ele era plenamente capaz de fazê-lo.
“Falando em magia sanguínea.”
As noites de ópera com Agonglô se mostravam muito divertidas, com o outro puro-sangue lhe contando as melhores fofocas históricas da sociedade vampira e humana da cidade. Haruka gostava disso. Fazia ela sentir que estava se assimilando melhor ao lugar onde morava. A Cidade Alfa era surpreendentemente mais parecida com Hong Kong do que ela esperava: era outro continente, e outros tempos, mas existia a mesma energia de metrópole caótica permeando tudo.
Agonglô estava contando sobre a época do sufrágio feminino. Constantino já tinha Bárbara, mas ela ainda não era seu braço direito.
— Foi a única vez que alguém da gangue do Constantino foi próxima de pessoas de outra gangue. Três das garotas de Weiss eram sufragistas. As quatro estavam juntas em todos os protestos que se esticavam além do pôr do sol. — Ele sorriu com a lembrança. — Meus meninos não ousavam chegar perto delas, mas Damião era apaixonado por uma das segunda-classe de Weiss, e ficava observando de longe e quando eu pedia um relatório eram quarenta minutos ouvindo sobre o que aquelas quatro estavam fazendo antes dele sequer pensar em relatar alguma coisa sobre as fronteiras e as atividades do resto da gangue. Eu comecei a torcer pelo sufrágio não por um interesse real nos direitos de voto das mulheres humanas, mas só pra ver essa novela acabar.
Ele fez uma pausa para respirar, e então pensou melhor.
— Você tem alguma opinião sobre essa coisa de voto feminino?
Haruka sorriu. Era bom que ele não gostasse tanto do som da própria voz a ponto de esquecer de falar com ela.
— Se eu e Aki não gostamos de um governante humano, nós geralmente damos um jeito de sumir com ele, mas… se eu não tivesse o Aki… eu não posso exatamente mandar um segunda-classe fazer isso, então eu teria que pensar se vale o esforço de ir pessoalmente. Mas para mulheres que não podem arrancar a cabeça do prefeito com as próprias mãos, eu suponho que faz sentido procurar uma forma jurídica de fazê-lo. Todas as criaturas se adaptam para compensar suas fraquezas.
Agonglô pensou sobre isso.
— Você considera sua técnica sanguínea uma fraqueza?
— A minha técnica sanguínea com certeza é inconveniente, mas normalmente eu consigo conviver com ela. O que me incomoda é a ausência do sangue primário. Eu gostaria muito de saber se é um efeito colateral da minha técnica, ou se é uma questão totalmente separada que me afligiria mesmo que eu tivesse outro poder ou não tivesse poder nenhum.
— Hmm. — Não seria direito ele opinar sobre a técnica dela, então o silêncio compenetrado era mesmo a melhor opção.
Agora era a hora de jogar a isca.
— Eu costumava consultar os feitiços sanguíneos da minha família para ver se tinha algo lá que pudesse me ajudar. Um feitiço com o mesmo efeito do sangue primário, ou… bom, eu costumava pensar em tirar minha técnica sanguínea.
Haruka fez uma pausa, e olhou para Agonglô. Ele havia assumido uma postura um pouco mais rígida, o olhar ao mesmo tempo desconfiado e intrigado. As famílias puro-sangue não falavam sobre os feitiços sanguíneos. Eram os segredos mais bem guardados da comunidade vampira: rituais que misturavam sangue com outros ingredientes de propriedades mágicas para desenhar símbolos, palavras, padrões, e evocar poderes que não estavam disponíveis nem para aqueles que possuíam técnicas sanguíneas. Influência que perdurava mesmo quando o vampiro se retirava, transformar inimigos em pedra, usar uma forma líquida ou gasosa para entrar em ambientes fechados, e toda uma gama de poderes mitológicos. Agonglô devia estar surpreso por ela tocar no assunto, mas hesitava em comentar. Seria um faux pas perguntar sobre feitiços sanguíneos por iniciativa própria, mas não havia uma norma social bem estabelecida para quando seu interlocutor trazia o tópico para a conversa. Esperava que ele entendesse isso como uma demonstração de… boa vontade.
— Baseado no fato de que você continua tendo uma técnica sanguínea, eu presumo que você não achou o que estava procurando.
— Não… — Já que Agonglô continuava sendo cuidadoso, Haruka teria que se expor um pouco mais. — Eu não sei se na sua família acontece o mesmo, mas a nossa biblioteca de feitiços sanguíneos é bastante especializada. Uma dúzia de variações da mesma magia, mas nada sobre o tópico que realmente me interessava.
Depois de uma pausa considerável, ele respondeu:
— A biblioteca da minha família também é bastante especializada.
“Você me mostra o seu se eu mostrar o meu?” Haruka apertou os lábios num quase sorriso. Teria que deixar o assunto pra lá, fazer parecer que ela apenas não ligava para as convenções sociais de não falar sobre feitiços sanguíneos, sem deixar transparecer que essa era toda a razão pela qual se aproximara dele desde o início. Era impossível dizer quando conseguiria mencionar o tópico novamente em uma conversa, mas mudou de assunto.
— Você manteve contato com eles depois de vir para o Brasil?
— Uma carta uma vez, para tranquilizar minha mãe, mas eu tentei não fazer disso um hábito. Eles passaram os primeiros duzentos anos enviando correspondência para uma firma em Recife, porque eu não contei a eles que estava vindo para o sul.
— Aki normalmente envia um presente para os nossos pais quando terminamos de nos estabelecer em uma área. Em Hong Kong eu escrevia um pouco mais, mas depois disso eu fiquei muito tempo sem ter nada para dizer. Acho que minha vida finalmente está voltando a ser interessante. — Abriu um pequeno sorriso e olhou para ele ao dizer isso, e Agonglô respondeu com um sorriso um pouco maior.
Foi a vez de Agonglô trazer para a conversa um tópico que normalmente era evitado.
— Os seus pais são do tipo que pressiona vocês para casar?
Haruka teve que tirar um leque da bolsa e cobrir metade do rosto para não fazer uma expressão cômica de surpresa. Quando se controlou melhor, fechou o leque e cutucou Agonglô com a ponta.
— Os seus pressionam?
— Com certeza! — ele riu. — Sem falha, toda a correspondência que eles já me mandaram mencionava pelo menos uma moça vampira de boa família, solteira, e algum interesse que poderíamos ter em comum, caso eu desejasse escrever para elas.
— Eles sugeriam isso? — Haruka teve que rir também. Achava a ideia de humanos se conhecendo por sites de namoro estranha, mas quando aplicada à comunidade extremamente seleta de vampiros puro-sangue o conceito parecia ainda mais absurdo. — Escrever para uma pessoa à qual você nunca foi apresentado? O que você escreveria numa carta dessas?
— De acordo com meus pais “Prezada senhorita Lydia Nikitinova, meu nome é Agonglô Do-Aklin, e minha família preza de muito prestígio na África Ocidental. Soube que a senhorita anda de trenó na neve, e quando criança eu desejava muito ver a neve. Creio que podemos estabelecer uma correspondência sincera e produtiva.”
— É uma coisa boa que você não mandou essa carta. — Haruka disse, controlando o riso. — Eu mandei uma carta para Lydia Nikitinova, e ela nunca se dignou a me responder. Desde então eu acredito que ela é terrivelmente rude e antissocial.
— Por favor não me diga que você vai parar aí. Eu quero ouvir o resto da história.
Haruka se encolheu, encabulada, mas sorrindo.
— Não é uma história muito longa. Eu era pouco mais do que uma criança, e não podia ter um segunda-classe pra brincar comigo. Então eu achei que seria legal fazer amizade com outros vampiros, mas a família Kāi não tinha ninguém da minha idade, e os Nikitinoff eram os mais próximos.
— Mas você não respondeu minha pergunta sobre pressões familiares.
— Meus pais nunca tomaram atitudes tão diretas, mas sempre houveram indícios. Minha mãe sempre me mandava acompanhar meu pai quando ele visitava os camponeses e as células de segunda e terceira-classes em cada vila. Ela dizia que eu “precisava saber como um homem de verdade administra seus negócios, para levar isso em consideração ao escolher um marido”. E Akihito ia com ela, para saber o que procurar em uma esposa.
— Eu gostei. Pragmático, sem ser intrometido.
— A intromissão começaria na hora de marcar um miai, mas saímos de casa antes disso.
— É uma espécie de entrevista para combinar um casamento arranjado, certo?
Haruka assentiu.
— Eu confesso que logo no início, quando Akihito nos apresentou, eu achei que era isso que ele tinha em mente. — Agonglô admitiu. — E tive a distinta impressão de que você só compactuava com isso para evitar o conflito.
— É curioso. Eu tive a mesma impressão sobre você. Quer dizer… meu irmão invadiu seu território e matou seus subordinados até que você abdicasse à região. — Haruka omitia Constantino da equação — E ainda assim, menos de uma década depois você aquiesce à sugestão do meu irmão de estreitar laços comigo. De ordinário eu esperaria uma rixa de trinta ou cinquenta anos antes da situação estabilizar.
Quando Haruka colocava as coisas desse jeito, era realmente curioso. Agonglô começou a se justificar.
— No começo as fronteiras demoravam mais ou menos isso para se acertar, mas os humanos estão acelerando, e acho que nós acabamos acelerando com eles. Antes de eu sair de casa eu vi meus pais se envolverem em exatamente uma disputa territorial. E neste continente foi quase uma por século. Os caçadores de vampiros também são um bom incentivo para encontrar um novo arranjo estável. As baixas pelas mãos dos caçadores aumentam enquanto estamos desorganizados, então seriam duas fontes de perda de recursos.
O que ele disse fazia sentido, mas, depois que Daisuke apontara o fato, Haruka não conseguia parar de enxergar: por alguma razão, Akihito sempre conseguia o que queria, e as pessoas próximas a ele abandonavam rancores e hostilidade com flagrante facilidade.
Talvez, apenas talvez — e ela reconhecia a sua relutância em considerar a hipótese no mínimo suspeita — Akihito tivesse uma técnica sanguínea.
Não percam o capítulo da semana que vem, no qual conhecemos Yuri e Jonas.
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