Técnicas Sanguíneas — Capítulo 44

No qual Haruka contrata um designer de interiores.

Tempo estimado de leitura: 16 minutos

Esse mês é meu aniversário! Eu obviamente tenho uma lista de desejos com livros que eu quero, mas francamente livros são caros, meu espaço na estante é pouco e de qualquer forma as estatísticas mostram que eu leio mais e-books do que livros físicos… então em vez da lista de desejos de livros eu vou deixar uma lista de desejos de coisinhas da casa, caso vocês se sintam compelidos a me comprar um benjamin colorido ou uma forma de fundo removível.

Outro presente que vocês podem me dar é ler e avaliar meus livros, tanto os da Amazon, quanto Técnicas Sanguíneas.

Sem mais delongas, vamos ao capítulo de hoje.

Banner com fundo degradÊ preto em cima e azul em baixo, mostrando o título em vermelho "Técnicas Sanguíneas, parte 3, memento mori, de A C Dantas" com vários espinheiros no fundo.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.

Capítulo 44

No qual Haruka contrata um designer de interiores.

Agora que havia descoberto o paradeiro de Yuri, Daisuke queria muito contatar Nathalie. Ela já tinha encontrado Jonas, e estava ansioso para que os quatro pudessem se reunir. Haruka já havia lhe dado permissão, só dissera que precisava submeter a data para aprovação dela.

“Como se ela tivesse grandes coisas na agenda…” Daisuke revirou os olhos. No começo havia acreditado que Haruka estava empenhada em deixar a casa de Akihito, mas o prazo que ela estipulara para adquirir a casa já havia passado, e ela nunca mais tocara no assunto. A única coisa que fazia era assistir vídeos de influencers japonesas, reclamar que o japonês de todos na casa estava pelo menos quarenta anos defasado, e então praticar algum tipo de arte.

Ou sair com Agonglô.

Às vezes Haruka contava sobre a ópera, e Daisuke entendia que parte do que sua criadora esperava dele é que fizesse o papel de audiência cativa. Não era tão ruim. Aprendia bastante sobre a ópera em si, mas muito mais sobre Agonglô. Nas últimas semanas algo havia mudado, e Agonglô não era mais um acompanhante para a ópera… a ópera era um acompanhante pra ele. A fachada indiferente de Kim se tornava menos convincente quando Haruka estava falando sobre o outro puro-sangue. Daisuke se perguntava se Haruka notava. Tinha certeza que sempre que saíam para a ópera Kim ia imediatamente fofocar com seu verdadeiro mestre. Será que Akihito era o tipo de irmão obcecado que não lidava bem com os pretendentes da irmã? Ou será que pelo contrário estava satisfeito, pois isso cementaria ainda mais profundamente a aliança entre os dois territórios? Também havia a possibilidade dele estar genuinamente feliz, afinal até um gangster sádico podia se importar sinceramente com a família.

Haruka sorriu para a tela do celular, e então colocou o aparelho de lado. Ela ainda não havia criado o costume de bloquear a tela, e o aplicativo de mensagens estava aberto no contato de Agonglô.

— Daisuke, pegue meus papéis de carta e as canetas que chegaram na semana passada.

Fora Daisuke quem guardara as canetas em um armário indicado por Haruka, então ele sabia onde ela guardava os materiais de escritório. Ela havia adquirido as canetas mais bem recomendadas por desenhistas, letristas e influencers. Era divertido vê-la trabalhar em uma carta: ela assumia a mesma postura de quando fazia caligrafia japonesa com um pincel, e então lembrava que essa não era a posição ideal para segurar canetas comuns, e se reajustava, apenas para voltar à posição original no início da próxima frase.

“Tec tec tec tec… plim!” Ele pensava numa máquina de escrever cada vez que Haruka repetia o ciclo.

Quando a carta estava composta e selada em um envelope que combinava com o papel de carta, ela se levantou e, com lentidão teatral, procurou um dos seus perfumes e borrifou a fragância sobre o envelope.

— Kim, entregue isso para Agonglô imediatamente.

Kim recebeu a carta como se fosse uma bomba relógio. Ele assentiu, pediu licença a Haruka, e acelerou para longe.

“Eu quero aprender a fazer isso.” Daisuke apertou os olhos para o local onde o outro vampiro havia desaparecido. Haruka o tirou do seu devaneio:

— Certo, Daisuke. Agora que ele está fora do caminho, temos uma reunião com nosso designer de interiores.

Ela atirou na direção dele as chaves do Mitsubishi prateado.

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Quando Haruka o tirara do porão dos caçadores de vampiro, Daisuke sabia que havia caído o suficiente para cometer homicídio. Ele não estava preparado para sequestro relâmpago.

Aparentemente Haruka tinha ideias estranhas sobre o que consistia em uma “reunião com o decorador”. Ela descobrira um designer de interiores em alguma rede social — Haruka tinha um perfil em redes sociais! —, gostara do trabalho dele, e através de uma mistura de stalking digital e físico, descobrira onde o rapaz morava, e em que horários saía e voltava pra casa.

Talvez a parte mais estranha tenha sido a ausência de um saco de estopa na cabeça ou clorofórmio. Em vez de força, Haruka havia usado doses cavalares de Influência. Um pouco curioso, Daisuke havia… ainda não tinha um vocabulário próprio para isso… estendido seus sentidos?… usando magia sanguínea. Como se ele próprio fosse usar Influência, mas parando antes de começar. De alguma forma isso permitia que ele “observasse” como Haruka usava os poderes. Ela era tanto forte quanto sutil, trabalhando em dois ou três níveis diferentes para garantir que Lucca — seu designer — tanto cooperasse agora quanto não formasse memórias muito específicas sobre o resto da noite, mas tudo isso sem comprometer sua noção espacial e bom gosto refinado. Era difícil, e Daisuke estava ciente que Haruka estava se exaurindo além do usual na tarefa, mas também era incrivelmente instrutivo. Daisuke já sabia que seu domínio da influência era rudimentar, mas se antes achava que ele era como uma criança na sua primeira aula de piano comparada a um pianista profissional. Agora ele percebia que Haruka era a orquestra sinfônica inteira.

— Aqui ficaria bonito um armário com uma planta em cima. — Lucca disse, num tom sonhador. — Quer dizer, se você gostar de plantas. Ou armários.

Às vezes ele pausava e franzia a testa, e parecia que ele ia perceber a estranheza da situação, mas então descambava em fazer perguntas.

— Você tem certeza que não quer mais iluminação? — Ele perguntou pela quinta vez, e Haruka garantiu que sim.

— Eu não quero que minha casa fique parecendo um hospital, querido.

— Mas então as paredes precisam ser brancas, senão o ambiente vai ficar tão escuro!

— Eu estava pensando em cinza gelo.

Lucca olhou para Haruka, então para as paredes da casa, assentiu, e se lançou em mais divagações sobre posições de sofás e luminárias. Ele claramente não tinha desistido de colocar mais luzes na casa. Haruka o seguia pela casa com um bloco de papel canson, fazendo rascunhos das ideias dele em tempo real. Lucca a elogiava muito por isso, provavelmente desnorteado demais para lembrar que o fizera cinco minutos atrás. Haruka parecia adorar, sorrindo sem sequer esconder as presas.

Quando terminaram, voltaram com Lucca até os arredores da casa dele. Haruka se debruçou sobre o pescoço dele e bebeu bem mais do que Daisuke considerava seguro. Ela abriu a porta do carro e o jogou em uma das cercas de arbusto da vizinhança sem cerimônia nenhuma.

— Ele vai ter uma noite miserável, mas vai sobreviver e, caso se lembre de alguma coisa, vai achar que foi tudo um sonho.

Daisuke assentiu. Haruka finalmente parou de usar a Influência, e em resposta ele próprio “desligou” os sentidos aumentados. Não estava preparado para a onda de sede e cansaço que o atingiu. Perdeu o controle do carro por um segundo, mas àquela hora da madrugada estavam sozinhos na rua, e retomou o controle do volante antes que algo grave acontecesse.

Era um sinal do quanto Haruka também estava cansada que ela não comentou sobre o fato imediatamente. Foi só depois de vários minutos que ela se dirigiu a ele.

— Você está voltando para a mansão?

— Estou… você quer ir pra outro lugar?

— Você perdeu a entrada lá atrás.

— Eu já peguei o retorno.

Haruka deu um aceno rápido com a cabeça.

— Você estava me assistindo usar Influência?

O sono e cansaço o fizeram demorar para processar a pergunta.

— Eu… estava.

— A noite toda?

Daisuke assentiu, e Haruka deu uma risadinha.

— Pare o carro, Daisuke.

Ele obedeceu, e olhou pra ela, cansado demais para ter expectativas.

— Se eu preciso repor o meu sangue e o seu, não dá pra contar com as empregadas da mansão. Eu vou caçar. Mantenha um perímetro.

Essa caçada foi diferente das outras que tiveram. Haruka não usou Influência para atrair um desavisado e deixá-lo sonolento enquanto ela bebia. Em vez disso, encontrou um homem em roupas maltrapilhas que revirava lixo e se aproximou dele com velocidade sobrenatural. O homem tentou gritar, mas ela comprimiu sua traqueia. Daisuke sequer teve tempo de desviar os olhos, mas no fim achou que era melhor assim. Era corresponsável por essas mortes, o mínimo que podia fazer era não se esquivar delas.

Haruka bebeu por bastante tempo, de olhos fechados, completamente entregue. Ainda assim, ela conseguiu se interromper para perguntar:

— A polícia aqui se preocupa com moradores de rua?

— Ãhn?

— Você não está pensando direito pela perda de sangue. — Haruka suspirou.

A pior parte é que era verdade. Daisuke engoliu em seco e se forçou a encontrar alguma reserva de força.

— Eles demoram mais pra notar e… não se importam o suficiente… mas… se o cadáver for encontrado sem sangue, daí o DECEPA é alertado imediatamente.

— Entendo.

Ela enterrou as presas no pescoço do homem mais uma vez. Dessa vez foi um pouco mais bruta, mas parou logo.

— Pronto. Ele ainda deve ter sangue o suficiente para não levantar suspeitas.

Quando se ergueu, seu kimono estava amassado. Apesar de ter bebido um ser humano quase inteiro, ela não estava corada como quando matara Hana.

— Espere por mim no carro. Você não está em condições de manter um perímetro.

#

Quando Haruka voltou, Daisuke acordou sobressaltado. Não era para estar dormindo.

— Só porque esse é o território do meu irmão, não quer dizer que você possa ser descuidado assim. — Haruka disse, entrando no banco do passageiro. Agora sim ela estava corada. — Beba.

Daisuke olhou para o braço estendido dela.

— Você vai ficar me testando toda vez? — a voz dele saiu mais mal-humorada do que considerava sábio ao falar com sua criadora, mas seu autocontrole estava no limite.

Haruka olhou para a própria pele imaculada e levou o pulso até a boca, abrindo os quatro furos pelos quais Daisuke esperava.

— Não toda vez, mas com certeza mais algumas.

No caminho de volta para a mansão, Haruka pegou o celular e ficou sorrindo enquanto trocava mensagens. Depois de alguns minutos, guardou o aparelho e informou:

— Kim estará de volta em uma hora. Você ainda está com uma aparência horrível, então quando chegarmos vá direto para o seu quarto.

Ele assentiu. Estava curioso sobre uma coisa, e depois de alguns instantes juntou coragem não para perguntar, mas para sondar:

— Não leva tudo isso pra levar e trazer uma mensagem do território do Agonglô.

Haruka sorriu, as presas despontando discretas.

— A não ser que Agonglô tenha arranjado uma desculpa para mantê-lo por lá até as quatro da manhã.

— Ele está te ajudando com o lance da casa?

— Ele não sabe sobre a casa, mas está me ajudando. É uma troca de favores.

— Qual o favor que você vai fazer pra ele em troca?

A pergunta escapou antes que Daisuke tivesse tempo de se lembrar do limites rígidos de hierarquia que Haruka impunha, e por um instante esperou um tapa ou que sua cabeça fosse simplesmente arrancada pela impertinência, mas quando o golpe não veio arriscou um olhar de relance para Haruka. O olhar dela estava distante.

— Talvez não uma troca de favores, mas uma demonstração de… boa-vontade. Você sabe pintar paredes?

Daisuke foi pego de surpreso pela pergunta. Talvez Haruka não quisesse falar sobre Agonglô. Talvez só estivesse muito ansiosa para começar as reformas na casa.

— Sei.

Era a única resposta segura, pois achava que se dissesse que não, o pintor também seria sequestrado e Influenciado a trabalhar de graça. Além disso, rodapés e cantos podiam requerer um pouco mais de atenção, mas não era nada que não pudesse aprender no YouTube.

— Ótimo. Amanhã irei à ópera com Agonglô. Kim será meu motorista, aproveite para começar a pintura.

— Certo.

Naquela anoite, Daisuke se recolheu pensando em qual era a natureza do relacionamento entre Haruka e Agonglô, e o que o puro-sangue teria feito para manter Kim ocupado. Era melhor do que ficar pensando nas pessoas que Haruka havia matado para alimentá-lo.

Não percam o capítulo da semana que vem, no qual Haruka e Agonglô mencionam assuntos indiscretos.

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