- Crônicas do Bloco de Notas
- Posts
- Técnicas Sanguíneas — Capítulo 43
Técnicas Sanguíneas — Capítulo 43
No qual Daisuke testa maneiras incomuns de iniciar uma conversa.
Tempo estimado de leitura: 16 minutos
E aí, o que vocês acharam do capítulo anterior? Shipam a Haruka e o Agonglô? Ficaram interessados no passado dos líderes de gangue?
A partir do capítulo de hoje, Daisuke vai começar a investir no seu próximo objetivo… mas eu prometo que nunca mais vamos passar três capítulos comprando um celular kkkk

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 43
No qual Daisuke testa maneiras incomuns de iniciar uma conversa.
Nathalie:
Eu achei o Jonas.
4a classe na gangue do Agonglô.
Daisuke se empertigou. Então Jonas era o policial levado por Agonglô.
Daisuke:
Você conseguiu falar com ele?
Nathalie:
Ainda não.
O criador dele quer meu celular em troca.
Estou passando pra avisar que vou ficar incomunicável por uns dias.
Qualquer coisa eu mando um recado.
Era um pouco surpreendente que um celular fosse moeda de troca para obter acesso a Jonas, mas considerando que a família de Constantino tinha um aparelho por núcleo de primos, talvez não fosse um absurdo tão grande. Não devia ser trivial superar as telas que pediam impressões digitais e todos os recursos de segurança que travariam e localizariam o dispositivo. Enquanto isso, Daisuke tinha Haruka para pagar sua conta de celular.
— Algum problema, Daisuke? — Haruka perguntou, pausando na sua pintura.
Aquela era uma das noites em que ela solicitava a presença dos dois segunda-classes. Kim continuava ajoelhado numa posição rígida, olhando para a parede, enquanto Daisuke se sentava de pernas cruzadas e mexia no celular. Normalmente Haruka também mexia no celular, explorando livros e vídeos de assuntos que lhe interessavam, mas dessa vez decidira se entreter à moda antiga, pintando uma aquarela.
— Não foi nada… — ele hesitou ao ver a expressão de Haruka se fechar. — Nathalie me falou que encontrou o caçador que ficou com Agonglô, e avisou que ia ficar um tempo sem celular.
Haruka inclinou a cabeça de um jeito que o deixava em dúvida se ela estava catalogando as picuinhas inferiores dos segunda-classes ou apenas tomando uma decisão estética sobre a paisagem que pintava. Haruka era uma aquarelista muito boa. Daisuke supunha que isso fosse o resultado de séculos de prática. Por um instante Daisuke ficou preocupado que ela fosse pedir mais informações, a última coisa que precisava era dela invadindo o pouco de privacidade que lhe restava, mas por sorte ela voltou a pintar.
Aliviado, Daisuke acabou baixando a guarda.
— É uma paisagem muito bonita.
Haruka olhou pra ele.
— Daisuke, eu te mantenho por perto para me atender caso eu precise de alguma coisa, e não pela sua habilidade de fazer sala. Vá lavar meus pincéis.
A sessão de pintura se encerrou abruptamente, e Daisuke podia jurar que Kim tinha um minúsculo sorriso presunçoso. Quis arrancar esse sorriso com garras e dentes.
“Unhas.” Se corrigiu, levantando e tomando os pincéis que Haruka lhe estendia. “Eu tenho unhas, não garras.”
Era uma coisa que sempre se perguntara quando era humano: como os vampiros conseguiam abrir a garganta uns dos outros com unhas aparentemente humanas. Quatro anos depois de sua transformação, tinha a impressão de que suas unhas eram mais duras e afiadas do que quando vivo, apesar de estarem longe de uma manifestação sobrenatural. Entendia que Haruka se considerava superior demais para ter uma conversa casual com seu segunda-classe, mas seria bom se ela às vezes parasse para explicar coisas de vampiro. A não ser que ela também não soubesse. Se puro-sangues podiam se reproduzir como seres vivos, talvez o corpo deles funcionasse de maneira diferente.
Quando descobrira sobre o sangue primário, havia achado que isso explicava a falta de cooperação de vampiros capturados pelo DECEPA nos anos iniciais, mas agora começava a achar que havia mais que isso. Era enervante não saber mais como o próprio corpo funcionava. Como seria tentar se reencontrar com um ente querido agora que tinha tão poucas certezas sobre si mesmo? Tentou imaginar como seria se Yuu quisesse vê-lo. Seu irmão lhe fazendo todas as perguntas óbvias como “você bebe sangue?” ou “você é imortal agora?”, e Daisuke ansioso que cada resposta fosse a que passaria dos limites e Yuusuke parasse de olhar pra ele como irmão, e enxergasse em vez disso alguma coisa bizarra ou monstruosa. Percebeu que nunca mais veria o irmão. Quer dizer… já sabia disso, mas achava que nunca mais veria o irmão para não expô-lo ao perigo — a si mesmo, quando ainda achava que podia beber sangue humano, e depois disso a Haruka e outras politicagens de gangues —, mas agora percebia que, mesmo que todos os outros vampiros evaporassem do dia para a noite e ele fosse a única criatura sobrenatural em toda a Cidade Alfa… ele ainda não iria atrás do irmão.
Essa nova faceta do luto o atingiu com tanta força que deixou os pincéis caírem na pia, e segurou a borda do mármore até as juntas pálidas ficarem anda mais brancas. Respirou fundo e jogou um pouco de água no rosto, decidido a não parecer alterado quando voltasse para o quarto de Haruka.
“Mente vazia, oficina do diabo.” Repetiu mentalmente o adágio que a mãe usava com eles, e isso lhe resultou em mais uma pontada de dor no coração. Se forçou a ir adiante com o raciocínio antes que ficasse preso em lembranças. Tentou pensar em algum projeto ou tarefa impossível, e então lhe ocorreu: se Nathalie havia encontrado Jonas, ele podia encontrar os outros dois.
Só precisava falar com Yukio.
#
A procrastinação é uma coisa maravilhosa, especialmente quando se é imortal.
Daisuke escolheu abordar Yukio da forma mais convoluta na qual conseguiu pensar. Vovó Kiku tinha mais de oitenta anos, e aparentemente velhinhas já meio caducas eram ótimas para praticar conversação em um novo idioma, porque elas se esqueciam do que ele havia dito e isso lhe permitia fazer a mesma pergunta várias vezes e praticar quinze versões diferentes do mesmo diálogo.
Naquela noite, vovó Kiku varria a varanda ao redor da casa. Depois de uma semana e meia de prática, Daisuke já perdera a timidez de falar em japonês, e cumprimentou com confiança:
— こんばんは、菊おばあさん!
— 진정해, 꼬마야. 난 한국어 알아들을 수 있어.
A confiança de Daisuke evaporou. Não havia entendido uma única palavra do que a senhorinha dissera. Ele hesitou, e ela ficou encarando-o com expectativa. Ela estava prestes a desistir e voltar a varrer, quando Daisuke entendeu o que estava acontecendo. Pesquisou no celular como se dizia “coreano” em japonês, e tentou formular uma pergunta. Ainda não tinha dominado perguntas. Ou tempos verbais que não fossem o presente.
— 韓国語… を…. 話し… まし… た… か?— Ele esperava ter dito “A senhora falou coreano?”
— あなたは外国人じゃないの?日本語が下手だね.
Ele entendeu as palavras “estrangeiro” e “japonês”, e deduziu (corretamente) que vovó Kiku havia criticado seu sotaque ou pronúncia. Ela tentara falar “na língua dele”, mas na cabeça dela ainda moravam na Coreia.
Pensou em tentar explicar que era brasileiro, ou que não falava coreano, mas como estava em dúvida entre as duas frases, não conseguiu formular nenhuma delas. Talvez devesse dar uma volta ao redor da casa. Quando voltasse a senhorinha não lembraria mais das gafes linguísticas, e ele poderia tentar de novo.
Assim que se afastou de onde vovó Kiku varria e virou a esquina da casa, Yukio pulou do telhado na sua frente.
Daisuke precisou de todo o seu autocontrole para não se agachar numa posição de combate. Sabia que não estava exatamente em guarda, já que não esperava ser atacado nas premissas da mansão, mas também não imaginava que estava com a guarda baixa a ponto de não notar o quão perto Yukio estava. Ou o braço direito de Akihito era ainda mais hábil em se camuflar do que demonstrava ao seguir Daisuke pela cidade, ou o próprio Daisuke precisava melhorar suas habilidades de vigilância.
— Qual é a sua? — Yukio perguntou, agressivo.
— Eu…
— Não me venha com essa de “praticar japonês”, você pode praticar japonês com qualquer um nessa casa. O que você quer?
Daisuke deu de ombros, e repuxou os lábios num sorrisinho minúsculo.
— Chamar a sua atenção. Eu acho que funcionou.
Foi divertido ver Yukio passar por todos os estágios de incredulidade antes de conseguir reagir. Podia imaginar o tipo de diálogo interno que ele estava tendo, a vontade quase incontrolável de dizer algo como “por que você não me ligou, como uma pessoa normal?”, apenas para responder a própria pergunta mentalmente com todas as razões pelas quais isso não funcionaria. Daisuke e Yukio não tinham o número um do outro. Era um costume comum enviar seus subordinados para passarem recados, mas Daisuke não tinha terceira-classes à sua disposição, e não sabia quem eram os terceira-classe de Yukio para que eles levassem o recado a seu criador. Então ou ele se arriscava a transmitir o recado para um terceira-classe aleatório e ver a fofoca se espalhando como queimada em mato seco, ou tinha que falar com o outro vampiro pessoalmente. E não haviam maneiras naturais de abordar pessoalmente alguém que no fundo você considerava um inimigo.
Finalmente Yukio suspirou.
— Só não fique atrás da minha irmã. É bizarro.
“Bizarro é a sua obsessão com ela. Será que ela conseguiu casar, com você urubuzando todo mundo que se aproxima dela?” Não sabia se a “vovó Kiku” era avó de alguém, ou só recebia esse apelido por ser uma das pessoas mais velhas da mansão — mesmo contando com os imortais, pois eram poucos os vampiros mais velhos que ela.
— Enfim, o que você quer? — Yukio perguntou, ainda enfadado, mas tentando soar menos hostil.
— Os dois caçadores de vampiro. O que aconteceu com eles?
Yukio não pareceu particularmente surpreso ou comovido com a pergunta.
— Você quer vê-los?
“Eu posso?” A pergunta travou na garganta de Daisuke, porque quando apresentada desse jeito fazia parecer que pedia a permissão de Yukio, e isso o irritava em um nível animalesco. Quem precisava de permissão eram os ex-caçadores que Yukio transformara em terceira-classe, não Daisuke.
— Eu quero.
— Um morreu, mas eu posso enviar Yuri para te encontrar.
“Yuri.”
Daisuke se lembrava de Yuri. Alto, olhos azuis, sempre com uma xícara de café na mão, mais novo do que ele na força policial, mas ainda veterano o bastante para participar da operação na qual haviam planejado destruir as operações de Akihito. Como haviam sido ingênuos. As “pistas” que encontravam nos esconderijos temporários dos terceira-classes eram falsas, mas os fizeram acreditar que aquele galpão era o centro de operações de Akihito — o local de onde ele gerenciava suas empresas de fachada e recursos mundanos, porém ilegais, que sustentavam sua gangue sobrenatural. Era uma armadilha, montada especificamente para obter um novo brinquedo para Haruka. Daisuke sentia a respiração travar ao pensar que todas as informações que eles achavam que iriam obter naquele galpão estavam disponíveis sobre a mesa da sala no apartamento de Kim no centro, e que ele tinha fotos de tudo no seu celular, e escolhera não mostrá-las à polícia.
“Será que entregar isso para eles daria sentido às nossas mortes?”
Mas também parecia errado se considerar morto quando estava claramente andando por aí, indo a restaurantes e tentando se reconectar com velhos amigos. Moxley, Nando e Pietro estavam mortos. O outro terceira-classe de Yukio — precisaria descobrir o nome dele — também. Mas Nathalie, Jonas e Yuri estavam por aí. Vivos, numa definição solta da palavra.
— Como isso vai funcionar? — perguntou finalmente. — Ele tem um telefone? Ou eu combino um horário e ponto de encontro com você, ou… ?
Em resposta, Yukio sacou um cartão de visitas dos bolsos. Daisuke não sabia se era mais estranho cartões de visita físicos ainda existirem, ou um vampiro ter um.
— Quando quiser vê-lo, me avise com uns três dias de antecedência.
Daisuke pegou o cartão de visitar que o outro lhe estendia, estreitando um pouco os olhos. Parecia fácil demais. Yukio só lhe devolveu um repuxar de lábios que talvez fosse um sorriso, e deu as costas.
“Isso foi rude.” Tão perto como estavam, era quase uma ofensa, como dizer que Daisuke era fraco demais para que ele se preocupasse em ser atacado.
No segundo seguinte Yukio se afastou com velocidade sobrenatural, usando aquela aceleração instantânea que o próprio Daisuke ainda não dominara.
Não percam o capítulo da pŕoxima semana, no qual Haruka contrata um designer de interiores.
Reply