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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 42
No qual Haruka vai à opera.
Tempo estimado de leitura: 16 minutos
Antes do recesso no Natal vocês já tiveram alguns capítulos da Haruka. Vocês gostaram de ter acesso ao POV dela? Não tenho muito a dizer, então preferia ouvir as opiniões de vocês.
Sem mais delongas, fiquem com o capítulo de hoje.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 42
No qual Haruka vai à opera.
Desde que começara a carregar Kim por aí como um chaveirinho mal-humorado, Haruka instalara um biombo em seu quarto para poder se trocar sem dar ao subordinado uma desculpa para sair das vistas dela. Ela havia parado de solicitar a presença de Daisuke todas as noites, numa demonstração de que não estava preocupada com o que ele fazia por suas costas. Haruka encenava cada demonstração de favoritismo com exagero diante de Kim, apenas esperando o momento em que ele explodiria. Ficava imaginando se ele atacaria Daisuke, ou pelo menos pediria um tratamento justo para si. Naquela noite, a provocação escolhida por Haruka foi mandar chamar Daisuke para ajudá-la a se arrumar para a ópera.
Havia deixado as cinco ou dez opções principais de roupas espalhadas sobre os móveis, e mandava Daisuke lhe passar peça por peça, apenas para descartá-las vinte segundos depois.
— Esse não serve. — Haruka jogou um vestido preto por cima do biombo. — Pegue a saia plissada.
Não é que estivesse indecisa. Pelo contrário, sabia perfeitamente como queria se vestir: com uma roupa que fosse primorosa o suficiente para passar a mensagem de que o passeio com Agonglô era uma ocasião especial, mas não de um jeito que Agonglô sentisse que a noite era especial por causa dele. Só que era difícil decidir qual roupa significava isso.
Estava prestes a chamar a atenção de Daisuke pela demora quando ele lhe entregou a saia, se aproximando do biombo por um ângulo estranho para evitar vê-la se trocando. Era bom que ele soubesse que arrancaria seus olhos se o pegasse lhe atirando olhares indevidos. Descartou a saia.
Vinte minutos depois, Haruka saiu de trás do biombo com um qipao preto com uma fenda provocativa se abrindo nas laterais desde o alto da coxa. Em vez de flores, os bordados dourados mostravam leões. Ela tinha o cabelo longo preso em um coque e brincos vermelhos que lembravam fios de prata sobre os quais chovera sangue. Olhou ao redor. Kim continuava ajoelhado, estoico, e Daisuke estava recolhendo as peças de roupas espalhadas pelo quarto, tentando dobrá-las e devolvê-las para os respectivos armários.
— Você estava arrumando enquanto eu me vestia?
— É um bom hábito. — Daisuke deu de ombros.
Haruka estreitou os olhos. Quando Daisuke se mostrava tão prestativo ele geralmente queria alguma coisa. Planejava levar Kim como chauffeur, mas decidiu que o carro era um bom lugar para conversarem longe de ouvidos curiosos.
— De fato. Agora vá se arrumar, você dirigirá hoje.
Daisuke assentiu e foi colocar seu uniforme. Haruka ainda não havia entendido porque ele escolhera um uniforme tão clássico e chamativo, vermelho com uma fileira dupla de botões, quepe e luvas brancas. Suspeitava que fosse um tipo de senso de humor estranho.
No carro, ficou esperando para ver se Daisuke faria o primeiro movimento, mas o silêncio dele a forçou a perguntar.
— Você tem algo para me dizer, Daisuke?
— Hã… — seu segunda-classe parecia genuinamente confuso. Para não deixá-la sem resposta ele adotou um tom falsamente animado. — Eu não sabia o que era uma saia plissada. Kim apontou pra mim. Eu fiquei muito surpreso com a ajuda, acho que somos amigos agora.
Sem conseguir se conter, Haruka riu. Definitivamente um senso de humor estranho.
Quando se controlou, mencionou que havia notado que ele arrumava seu quarto enquanto ela se vestia.
— Sempre que você se mostra particularmente solícito, não demora muito para você aparecer com um pedido.
— Ah, isso. — Ele fez aquela pausa embaraçada que mostrava que estava tentando formular os pensamentos da maneira mais respeitosa possível. Haruka ainda não estava convencida de que ele conseguisse ser respeitoso de verdade, mas talvez ainda não tivesse se ajustado à aparente falta de formalidade deste continente e deste século. — Bom, quando você se mudar, você pretende levar alguma das criadas humanas? Afinal, é Akihito quem paga o salário delas.
Haruka sentiu o bom-humor deixá-la. Chegara a pensar sobre isso, no sentido de identificar que isso seria um problema, mas estava longe de pensar em uma solução.
— Então, você está se preparando para assumir as tarefas domésticas. E você faz isso movido apenas pelo seu comprometimento comigo, não porque tem algo para pedir?
— Não, eu… Tem uma coisa que eu não ia te pedir, porque são coisas de segunda-classe, e eu sei que você prefere não lidar com a nossa laia. Mas eu suponho que você saberia como ajudar.
— Fascinante. Conte-me.
— Antes, bem no começo, quando eu me encontrava com a Charlotte… Ela falou que contando comigo foram oito caçadores transformados. Nathalie e eu estávamos pensando… você me transformou. Alana transformou ela e mais dois. Queríamos saber quem eram os outros.
— Entendo. Agonglô e Weiss ficaram com um cada um, e meu irmão deu os dois que sobraram para Yukio.
Haruka sentiu o instante em que Daisuke passou de servil para rebelde. Ele não tolerava que seu destino como segunda-classe era ser propriedade de um vampiro puro-sangue, mas a lembrança do banimento por enquanto evitava que protestasse abertamente. Haruka procurou os olhos dele pelo espelho retrovisor.
— Você quer que eu te arranje um encontro com eles, Daisuke?
Ele ficou sem responder por um longo tempo. Quando falou, soava incerto.
— Eu… eu não ia te pedir isso. Agora eu já sei onde eles estão, posso fazer alguma coisa com essa informação, então… obrigado.
O “obrigado” fora inesperado. Haruka ficou em silêncio o resto da viagem.
#
— Haruka. Seja bem-vinda.
Agonglô se ergueu para recebê-la quando ela chegou a seu camarote na ópera. Haruka notou satisfação que Agonglô examinava seu vestido. Permitiu que ele continuasse seu escrutínio, e o observou cuidadosamente de volta. Ele e Akihito eram semelhantes no sentido de preferir ternos pretos para aparições públicas e vestes remetentes a sua cultura em casa, mas Agonglô conseguia usar ternos pretos de um jeito chamativo. Certamente as camisas sociais coloridas ajudavam, mas os anéis e enfeites dourados nos dreadlocks provavelmente contribuíam mais. Ele não era tão alto quanto Akihito, mas tinha um porte mais sólido que Haruka apreciava.
O vampiro só tornou a se sentar depois que Haruka havia se acomodado. Agonglô era sempre um perfeito cavalheiro, mas também era formal, quase distante. Ela pretendia ver se a distância era intencional. Trocaram as amenidades de sempre, comentários sobre os cantores mais promissores da temporada e os humanos abastados que eram frequentadores assíduos da ópera. Para Haruka, era difícil pensar em uma ponte que os levasse até as coisas que ela realmente queria saber. Perguntar sobre a gangue dele, as fronteiras, a trajetória para chegar nelas… parecia assunto de negócios, e até então ela e Agonglô não se encontravam para “negócios”. Se encontravam porque eram os únicos vampiros puro-sangue solteiros na região, e cedo ou tarde era preciso continuar a linhagem, então cedo ou tarde era preciso conhecer pessoas. Mas perguntar sobre a família dele e suas tradições seria uma abordagem íntima e repentina demais para a dança de polidez impessoal que vinham praticando desde que se conheceram.
No fim, foi Agonglô quem lhe deu a abertura.
— Você nunca consulta as letras das peças no programa. A princípio eu achei que você falasse italiano.
— Eu decorei as letras previamente. A ópera é um espetáculo, seria rude não dar a ela minha plena atenção.
Ela percebeu quando Agonglô hesitou, e emendou:
— Mas, é claro, a sociedade dos frequentadores de ópera é tão parte do espetáculo quanto os músicos e figurinos.
Agonglô sorriu com os lábios fechados.
— Infelizmente no último século nenhum barão usou estes camarotes para planejar o assassinato de um rival. A qualidade da alta sociedade humana decaiu muito.
Haruka riu, e viu uma oportunidade que podia agarrar.
— Eu não duvido, mas com apenas uma década na cidade eu não estou apta para julgar. Há quanto tempo você veio para cá?
— Para o Brasil, ou para a cidade especificamente?
Ela deu de ombros levemente, indicando que não fazia diferença. Nunca era educado demonstrar interesse demais. Ele inclinou a cabeça e escolheu o que compartilhar:
— Eu cheguei ao Brasil há quase quatrocentos anos, mas demorei uns cento e cinquenta anos para fazer o caminho dos estados do norte até aqui. Constantino chegou primeiro.
— No começo eram só vocês dois?
Agonglô assentiu.
— E você… falava com ele?
A ideia de um puro-sangue negociando com um segunda-classe, mesmo um segunda-classe antigo como Constantino, era ligeiramente repulsiva. Agonglô fez uma careta que indicava que pensava o mesmo.
— De forma alguma. Na época a cidade era muito menor, Constantino mantinha sua pequena “família” concentrada na área urbana e não tinha interesse nas fazendas. Eu fazia o contrário.
— E depois disso? Quem veio primeiro, Wilson ou Weiss?
Agonglô sacudiu a cabeça, sorrindo sem humor.
— Wilson não “veio”. Ele surgiu aqui. Depois que aconteceu de novo com aquela mulher problemática, eu comecei a considerar se essa terra toda não é amaldiçoada. Dois deles em duzentos anos…
“A ‘mulher problemática’ é minha amiga pessoal.” Haruka pensou, mas não disse nada. Se permitir fazer amizade com uma primeira-classe era uma falha de caráter grave demais para se admitir nos primeiros encontros. Seu silêncio foi o suficiente para convencer Agonglô a mudar de assunto.
— Mas não dá pra dizer quem veio primeiro. Quando a cidade disparou a crescer e de repente tudo era área urbana, Constantino e eu começamos a redefinir fronteiras. Weiss estava num território próximo, cidades do interior, e aproveitou para pegar o bonde andando. Wilson já devia estar por aí, mas nós demoramos um pouco para notá-lo. Ele passou muito tempo na surdina, sem formar uma gangue.
— Nem mesmo uma gangue pequena, como a de Alana?
Agonglô deu de ombros.
— Nós nunca notamos. Algum motivo específico para o interesse em história antiga?
— Não tão antiga assim. — Haruka considerou o que compartilhar. — Eu às vezes penso em voltar para o Japão e recomeçar as operações do meu irmão em Kyoto.
O que não disse foi que abandonara essa linha de pensamento muito rápido, insatisfeita com a ideia de morar praticamente no quintal de seus pais. Agonglô inclinou a cabeça, como se achasse a ideia razoável, mas hesitou.
— Eu não quero ser rude, mas não posso deixar de me perguntar como sua técnica sanguínea afeta os seus planos.
Não era da conta dele, é claro, mas até que ele formulara bem a pergunta. A primeira reação das pessoas ao descobrir que ela não tinha sangue primário era considerá-la menos capaz, uma vampira adulta que nunca poderia viver sozinha. Na época de Hong Kong ela e Aki haviam limpado o território, por meio de acordos ou violência, conforme o necessário, e ela sentia que havia se provado. Tudo desabara após a traição dos seus segunda-classes. Décadas alternando entre se sentir inútil e incapaz, ou atordoada demais para sentir qualquer coisa.
Haruka suspirou.
— Eu seria tola de não reconhecer que minha habilidade de controlar um território é limitada. Eu necessariamente tenho que ter poucos segunda-classe, e tenho que mantê-los sob um controle muito rígido. É… menos do que eu planejava para mim, mas não é ruim.
— A fase quando a gangue é pequena pode ser muito íntima e confortável.
— Eu achava que seis era uma gangue íntima e confortável, mas aparentemente eu estava errada, não?
Em pensamento, Haruka se recriminava. Como não querer que seus pares tivessem pena dela, se a cada conversa que se tornava minimamente pessoal ela acabada recontando sua história e enfatizando o quão indefesa ficara diante de meros segunda-classes? Por um segundo, o olhar de Agonglô suavizou um pouco, e ela achou que sua noite estaria irremediavelmente perdida, mas então o vampiro se conteve. Após um segundo, ele perguntou, empolgado:
— É verdade que você os mantém em caixões de ferro num porto em Hong Kong até hoje?
— Sim.
Agonglô sorriu como uma criança vampira em sua primeira caçada, mostrando mais presa do que a etiqueta normalmente permitia, e Haruka se pegou sorrindo de volta.
Talvez a noite não estivesse perdida, afinal.
Não percam o capítulo da semana que vem, no qual Daisuke testa maneiras incomuns de iniciar uma conversa.
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