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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 41
No qual vampiros comem camarão.
Tempo estimado de leitura: 13 minutos
O capítulo de hoje encerra o jantarzinho da Nathalie e do Daisuke. Adoro escrever as interações deles, e adoraria ouvir o que vocês pensam sobre cada capítulo. Vocês podem responder os e-mails ou postar alguma coisa sobre o assunto usando a hashtag #TécnicasSanguíneas.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 41
No qual vampiros comem camarão.
A jornada de Daisuke e Nathalie de experimentar todas as bebidas do menu em ordem alfabética foi interrompida precocemente por um fenômeno que aconteceu enquanto provavam absinto.
Daisuke levou a bebida aos lábios, apenas para imediatamente começar a emitir uma série de grunhidos incoerentes e cobrir a boca com a mão.
— O que foi? — Nathalie olhou preocupada para ele. Achava que ele ia vomitar.
Ele sacudiu a cabeça e baixou a mão devagar.
— Não é nada grave, é só que eu não esperava reação nenhuma… e meus lábios estão ardendo.
— Se em cinco minutos você não sentir nenhum efeito pior eu quero experimentar também.
Foram cinco minutos durante os quais Daisuke pensou três vezes em mandar uma mensagem de texto para Haruka perguntando se — chamou o garçom e pediu para ver a garrafa da bebida agressora, lendo os ingredientes no rótulo — anis, funcho e artemísia eram plantas venenosas para vampiros. Mas nada aconteceu, a ardência passou, e logo Nathalie estava levando uma taça aos lábios também. Ela riu.
— É tipo aquelas histórias de alergia leve a abacaxi! “Peraí, quer dizer que não é normal sentir os lábios ardendo quando come abacaxi?” Ou gente que gosta de pimentas fortes.
Daisuke concordou. Decidiram manter a garrafa, tomar mais algumas doses para ver se haviam efeitos adicionais. Na metade da garrafa tiveram certeza que não ficariam bêbados, mas Nathalie acabou tendo outra ideia.
— Dai… você tentou comer coisas sólidas.
— Foi. Não é exatamente como dor de barriga, mas é super incômodo, e você precisa gastar sangue pra digerir.
— Certo… mas você disse que o gosto é normal?
— É…? — a resposta soou incerta porque não sabia aonde a amiga estava indo com isso — Só que mesmo tendo o mesmo gosto de sempre, não tem mais gosto de “comida”.
— Eu queria comer camarão. Eu não como desde os doze anos, quando eu descobri que eu era alérgica. Mas agora eu sou vampira, eu não sou mais alérgica a camarão, certo?
Então pediram camarão.
Tiveram um ataque de riso ao ver o tamanho minúsculo da porção. Era exatamente a caricatura de prato gourmet com um belisco de comida no centro, um fiozinho de molho ao redor e uma folhinha no topo. Pelo menos agora o garçom acreditava que estavam bêbados.
— Pronta? — Daisuke perguntou a Nathalie quando ela garfou o primeiro camarão.
— Só se for agora.
Ela colocou o pequeno crustáceo na boca. Foi a vez dela arregalar os olhos e parecer prestes a vomitar, e Daisuke viu a luta interna nos olhos dela — não queria chamar a atenção, mas definitivamente tinha algum problema com o camarão, e ela olhara para o guardanapo, cogitando cobrir a boca e depositar o camarão ali — antes de se decidir a engolir. Quando terminou, ela respirava com dificuldade, e estendeu a mão para o absinto. Desistiu. Uma bebida que queimava não parecia reconfortante depois do que passara. Ela tomou um golinho minúsculo de água com gás — Daisuke ficara abismado com como Nathalie realmente parecia gostar das bolhinhas, ele próprio preferia bebidas com textura mais semelhante à do sangue — mas parou logo em seguida. Água com gás aparentemente também não aliviava a sensação de mal-estar.
Daisuke notou que o garçom os observava, esperando para saber se devia intervir. Nathalie ainda parecia aflita.
— Posso te oferecer uma bebida?
Ela assentiu sem pensar muito. Daisuke acenou para o garçom. Tentou se lembrar do esforço sobre-humano de se manter funcionando após fugir de Yukio, e de como chamara Hana.
— Com licença. Minha amiga está se sentindo doente.
— A senhorita gostaria de ir a um salão mais privado, se reclinar em um divã e aguardar enquanto o médico de plantão vem atendê-la?
O restaurante tinha um médico de plantão. Fascinante. Mas Daisuke o interrompeu.
— Na verdade… ela vai ficar bem se tiver um pouco de companhia. Por que você não se senta com ela? Seria reconfortante.
Nathalie olhou pra ele, surpresa, e reconhecendo o que estava acontecendo. Daisuke não pôde retribuir o olhar dela. Precisava de toda a sua concentração. O olhar do garçom estava embaçado, mas ele ainda não havia se movido.
— Vai ser rapidinho. Não tem nada de estranho nisso.
Finalmente o garçom se sentou ao lado de Nathalie.
— Daisuke! Você sabe que a… que ela não me deixa! — a vampira sussurrou, alternando o olhar entre Daisuke e o garçom sob Influência.
— Ela não te deixa caçar. Mas ela te deixa sair pra beber comigo. Eu te trouxe uma bebida. — ele ergueu as mãos, dando de ombros. Tinha um sorriso maroto nos lábios, mas até suas olheiras pareciam mais profundas pelo esforço.
Nathalie não precisou de mais persuasão.
O medo de ser vista pelos outros clientes do restaurante ou do garçom sair do transe da Influência a fizeram beber rápido. Daisuke nem precisou indicar o timing para parar sem ferir o humano. Quando ela acabou, Daisuke se levantou e ajudou o funcionário confuso.
— Acho que você deveria se reclinar em um divã. — ele disse, com uma última nota de Influência, e desabou exausto de volta em sua cadeira quando o garçom desapareceu em uma sala lateral.
— Você parece péssimo.
— Muito gentil da sua parte…
— Agora eu queria poder te oferecer uma bebida. — Uma pausa para deixar implícito que mesmo que ela soubesse como fazê-lo, seria inútil por causa da habilidade de Haruka — Quando você aprendeu a usar Influência?
Daisuke não conseguiu evitar um sorriso, e se permitiu mostrar as pontinhas das presas.
— Hoje. Agora.
Nathalie ficou adequadamente impressionada, mas Daisuke não quis se manter no foco das atenções. Indicou o prato dela:
— E então? Qual o problema com o camarão?
— Ah, isso… é meio ridículo, mas… eu esqueci como mastigar.
Ela parou, olhando para Daisuke como se esperasse ele rir, e ele até queria rir, mas também estava embasbacado. Não sabia que isso era uma coisa que se podia desaprender. Será que ele também tinha se esquecido? Afinal, da última vez que tentara tinha menos de três meses como vampiro. Tudo o que conseguiu dizer foi:
— Eu tenho certeza que engolir ele inteiro não ajudou.
Nathalie balançou a cabeça e apoiou a mão no estômago.
— Eu consigo sentir a magia sanguínea tentando derreter ele. Parece uma azia. Beber o garçom ajudou, obrigada.
— Você pelo menos conseguiu reparar no gosto?
— Não…
Depois de alguma hesitação, Nathalie garfou outro camarão.
— Vamos lá. Estamos pagando por isso, eu me recuso a ser derrotada por um camarão.
— Eu te acompanho.
Daisuke garfou outro camarão, e os dois colocaram o crustáceo superfaturado na boca ao mesmo tempo. Mastigaram com caras de concentração profunda. Daisuke mordeu a língua. Quis engolir por reflexo, mas a coisa ainda parecia muito sólida. De repente ficou em dúvida: o quanto precisava mastigar as coisas mesmo? “Até elas virarem líquidas” claramente não era a resposta certa, mas era o que ele queria fazer. Engoliu, e viu Nathalie fazer o mesmo. Ficaram em silêncio, sentindo a queimação na garganta e na boca do estômago.
— É… definitivamente tem gosto de camarão. — ela disse.
— Foi bom?
Nathalie deu de ombros.
— Eu gosto do cheiro de fogueiras de São João. Eucalipto. Tinta fresca. Eu não colocaria nenhuma dessas coisas na boca.
— Não tem balas sabor eucalipto?
— Elas são horríveis.
Mais silêncio pensativo, que Nathalie quebrou:
— Você fica deprimido quando pensa que uma coisa tão humana não significa mais nada pra você? Quer dizer… comer juntos é uma das atividades humanas mais antigas, toda carregada de significado cultural… e a gente não é mais parte disso.
— Um pouco. Mas eu não vejo exatamente desse jeito. Afinal, a gente ainda se reúne em barzinhos e restaurantes, em vez de, sei lá, um boliche ou uma galeria de arte. A gente não come o que eles servem aqui, mas a gente ainda tem sentimentos sobre comidas, experimenta bebidas novas. Não deixa de ser uma coisa social. Cultural.
— Você tem sorte que eu estou de bom humor. Se você ficasse sendo otimista enquanto eu estou deprimida eu era capaz de te morder.
Daisuke colocou a mão no peito num gesto teatral.
— Eu jamais faria uma coisa tão insensível quanto ser otimista na frente de uma pessoa deprimida. Eu tenho certeza que isso é uma quebra horrível de etiqueta.
Nathalie sacudiu a cabeça, um sorriso no rosto.
— Eu quero fazer mais coisas humanas, sabe? Talvez a gente deva ir num boliche. Eu acho… Daisuke, você também pensa nos outros três?
Ele soube imediatamente do que ela estava falando, mas se fosse honesto, admitiria que não pensava neles desde que se internara na delegacia do DECEPA.
Dos sete caçadores de vampiros que haviam sido transformados na mesma noite que Daisuke, quatro tinham o paradeiro conhecido. Nathalie estava bem diante dele. Moxley, o antigo parceiro dela, fora dado a Weiss, e tentara fugir. Os caçadores o encontraram morto no território de Wilson. Nando e Pietro haviam sido enviados a Alana junto com Nathalie, e haviam encontrado seu fim pelas mãos da própria criadora. Faltavam três.
— Você acha que eles ainda estão vivos? — perguntou, à guisa de resposta.
Nathalie pensou em brincar e dizer que “é claro que não, eles são vampiros!”, mas disse simplesmente:
— Eu prefiro descobrir que eles morreram e poder honrar a memória deles do que só ir existindo até os anos virarem décadas sem nunca perguntar.
— Quer saber? Eu acho que você está certa. — encheu as taças dos dois com o absinto e propôs um brinde — Aos amigos ausentes.
Nathalie ergueu a própria taça em resposta:
— E às refeições compartilhadas, e à todas as pequenas coisas que nos tornam humanos.
Não percam o capítulo da semana que vem, no qual Haruka vai à opera.
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