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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 40
Sobre amizades com o potencial de serem eternas.
Tempo estimado de leitura: 12 minutos
Feliz Ano-Novo!
Os e-books de Técnicas Sanguíneas saíram do ar, então se você não pegou, vai ter que esperar até o fim da parte 3 — lembrando que eu mando o link apenas para os assinantes da newsletter.
Não tenho muito a contar sobre a vida, o universo e tudo o mais, então vou deixar acumular as notícias até o próximo boletim de informações.
Sem mais delongas, fiquem com o capítulo de hoje de Técnicas Sanguíneas.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 40
Sobre amizades com o potencial de serem eternas.
Tudo no restaurante chique do terraço era deslumbrante, e Daisuke e Nathalie ficavam divididos entre o instinto vampírico de imitar os humanos no local e se camuflar, e a vontade de observar cada minúsculo detalhezinho. Confundiram um pouco o garçom ao dispensar as entradas e ir direto para a bebida.
— Você bebia, né? — Daisuke perguntou à amiga. — Tem recomendações?
— Bom… normalmente eu tomava cerveja. Agora que teor alcoólico não é mais um problema, acho que vou ter que recriar todo o meu critério para bebidas. Todas as coisas com cheiro de fruta e um guarda-chuvinha de papel que eu achava fortes demais pra uma saída casual agora são viáveis.
— As fotos pelo menos são lindas.
Nathalie pediu um mojito, achando a descrição do drink intrigante. Era o mesmo de sempre: rum, hortelã, limão e água com gás… só que caro. Os mojitos dos bares que frequentava quando viva provavelmente eram feitos com hortelã do quintal de alguém, e nesse restaurante até a água com gás era de marca. Daisuke pediu um coquetel colorido que continha vodka e xarope de groselha. Foram passando pelo menu, pedindo um drink atrás do outro baseado em critérios como “nunca tomei um desses” e “olha como é bonito e colorido”.
— Será que a gente não devia fingir estar bêbados em algum ponto? — Nathalie perguntou, mais divagando do que fazendo uma sugestão séria — O garçom já está anotando nossos pedidos com uma cara preocupada, como se a gente fosse desabar de coma alcoólico a qualquer momento.
— Deixa ele. Quem sabe se a gente causar uma impressão profunda o suficiente a gente não vira uma lenda urbana.
Falando em lendas urbanas.
— No fim, você chegou a perguntar pra Haruka o que consegue deixar vampiros bêbados?
— Não! — Daisuke ficou chateadíssimo com o próprio esquecimento. Não achava que fosse usar esse conhecimento na prática, mas parecia um ótimo tópico para conversas.
— Acho que vamos ter que descobrir sozinhos. Será que eles ficam bravos se a gente riscar no cardápio os que já testamos?
Riram, e Daisuke ficava feliz de ver Nathalie se divertindo. Sem pensar, disse, ainda em tom de brincadeira:
— Com o que estamos pagando aqui, eu acho que eles deixariam riscarmos a cara deles.
Infelizmente, a menção ao pagamento fez Nathalie recobrar um pouco da seriedade.
— Dai… você disse que tudo isso está indo no cartão da Haruka, e eu não vou discutir quem paga porque eu simplesmente não tenho condições de rachar a conta num restaurante desses, mas… por quê? Por que não estamos nos encontrando num dos lugares de sempre?
— Ah, sobre isso. — Daisuke sentiu o sorriso diminuir e quase desaparecer. — Eu queria fazer alguma coisa legal pra você.
Vários pensamentos cruzaram a cabeça de Nathalie, e em nenhum deles a afirmação de Daisuke fazia sentido. Antes que pudesse perguntar “por quê?”, Daisuke continuou:
— Haruka me contou que falou com você. Ela nunca teria me procurado com os caçadores de vampiros se você não tivesse matado a charada. Eu ia apodrecer naquele lugar correndo o risco de atacar pessoas que um dia foram minhas colegas de trabalho, e eu ia morrer lá. Você salvou a minha vida.
Apesar de olhar na direção de Nathalie, ele evitou os olhos dela. Na verdade ela ficou grata por isso, porque também não sabia onde se enfiar.
— Eu… não sabia se era pra contar. Talvez você não quisesse ser achado. Que bom… que eu tomei a decisão certa, então.
Daisuke assentiu.
— Obrigado, Nathalie. Eu espero que a Haruka e a Alana continuem sendo amigas, porque eu quero que a gente continue sendo amigos.
— Melhores amigos pra sempre? — Nathalie brincou.
— Quem sabe? — Daisuke ergueu uma taça, num brinde displicente — Agora temos essa opção.
Ficaram algum tempo em silêncio confortável, até que Nathalie perguntou, num tom leve e sem julgamento:
— Então se Haruka e ela brigarem, não vamos mais poder ser amigos?
— Eu… eu não tenho mais coragem de desafiar a Haruka.
O tom de Daisuke pegou Nathalie desprevenida. Depois de quatro anos como vampira, achava estranho presenciar vulnerabilidade. Estendeu a mão sobre a mesa da mesma forma que Daisuke fizera pra ela quando contava sobre seus problemas com Alana, e ele a tomou com gratidão. Ele engoliu em seco e continuou.
— Talvez um dia eu tenha coragem de novo, mas eu não acho que isso vai acontecer nos próximos dez anos, e essa vida de vampiro parece muito incerta pra fazer planos pra além disso.
— Hmm. Eu não sei se ajuda, mas do jeito que eu enxergo as coisas… pelo menos a Haruka não é doida? Acho que dá pra descobrir a lógica de como deixar ela de bom humor e durar séculos. O Akihito não tem um segunda-classe de uns duzentos anos?
Ela estava falando de Han. Daisuke não tinha certeza se ele era tão antigo assim, mas era um ponto a se considerar. Os puro-sangues às vezes se apegavam aos seus segunda-classe e os arrastavam através dos continentes e dos séculos. Só queria saber se algum dia a sensação de insegurança passaria, ou se mesmo depois de vinte ou setenta anos cada semana seria uma luta para permanecer nas boas graças de Haruka.
— Mas e você? Você acha que a Alana é doida, então? Como você tem se sentido?
Nathalie pensou um pouco antes de responder.
— Eu tenho certeza que ela é doida, e eu queria tanto que isso não fosse problema meu. A situação… continua a mesma de antes. Quando acontece eu continuo me sentindo horrível, mas… eu acho que eu me sinto… emocionalmente mais forte? Quando ela dorme e eu estou jogada na cama dela igual um trapo e não consigo dormir, às vezes eu quero me matar. Mas agora o sentimento passa. Antes era uma ideia fixa que durava até ela me chamar de novo, e eu passava as noites pensando se eu devia puxar uma briga com outra gangue e ver se eles acabavam com a minha existência miserável por mim. Agora… eu me sinto assim alguns dias, mas outros não. Eu também me sinto suja, mas eu não sinto mais que isso é uma coisa minha. Eu sinto que é uma coisa dela que acabou pegando em mim. Nos dias bons eu sinto que eu consigo lavar essa sensação da minha pele se eu esfregar com força. Nos dias ruins nem tanto. Mas já faz uma diferença enorme saber que essa sujeira não é minha. Não sei se faz sentido.
— Faz perfeito sentido. É a diferença entre ser uma pessoa fedida e ser uma pessoa linda e cheirosa que por acaso foi parar na caçamba de um caminhão de lixo.
Nathalie sorriu. Não era mais o mesmo sorriso animado do início da noite, mas também não era completamente sem humor.
— Sabe, a essa altura, eu nem acho que beber sangue é a pior parte de ser vampira. É claro que eu não quero matar pessoas, mas… você acha loucura se eu disser que, se tirasse o sangue primário da equação, eu poderia gostar disso?
A princípio Daisuke ficou um pouco abalado com a declaração, e o sorriso de Nathalie diminuiu, mas ele se forçou a pensar.
— Eu acho… que ninguém “escolheria” ter câncer. “Sabe, eu sempre sonhei em fazer quimioterapia!” Mas o câncer meio que acontece… e daí você vai se tratar… e é perfeitamente normal você buscar uma vida plena? Você pode… fazer amizade com seus colegas de quimioterapia, e talvez uma das enfermeiras tenha uma sobrinha que faz bolo de pote e seja o bolo de pote mais delicioso que você já comeu na sua vida, e sempre que você vai na clínica você compra um, e a enfermeira começa a te mostrar fotos do neto recém-nascido e é um bebê rechonchudinho e lindo, e talvez no caminho você passe na frente daquele cinema de rua e nos dias que a químio não acaba com você, você resgata o hábito perdido de ir ao cinema, e você percebe que apesar dos dias de dor e náusea… você não odeia sua vida? Não é como se você “gostasse de ter câncer”, mas você reconhece que essa é uma coisa que aconteceu na sua vida e você lida com ela como pode, e esse caminho tem coisas legais também… e você apreciar elas não significa que as coisas ruins não são ruins, só… que você se dá o direito de ser feliz? Então, se pensar no vampirismo desse jeito, acho que faz sentido? Sei lá… se você pudesse ter sido transformada por qualquer outro vampiro, você ia preferir ser vampira do que ser humana?
Nathalie sacudiu a cabeça.
— É, eu não acho que eu iria tão longe.
Isso foi um alívio para Daisuke, mas ele achou que seria rude suspirar. Não queria parecer que sua amizade e apreço eram condicionais — o risco da relação de suas criadoras os afetar já era sombra mais do que suficiente sobre o relacionamento deles — mas não podia negar que fora um susto. Tentou aliviar o clima pegando o menu de bebidas:
— Então, o que ainda não testamos?
Chamaram o garçon, e ele definitivamente empalideceu ao anotar os pedidos. Os dois sorriram, deixando entrever as pontinhas das presas. Podiam se dar ao luxo de causar um pouquinho.
Não percam o capítulo da semana que vem, no qual vampiros comem camarão.
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