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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 54
No qual talvez almas sejam reais
Tempo estimado de leitura: 12 minutos
Semana passada eu já disse tudo que precisava dizer. O capítulo da semana que vem encerra a terceira temporada de Técnicas Sanguíneas, e já vou disponibilizar o e-book para os assinantes. Além do e-book da terceira temporada, os e-books das duas primeiras também vão ficar disponíveis novamente. Como sempre, peço para não distribuírem os e-books, se quiserem compartilhar com alguém, encoragem a pessoa a se inscrever na minha newsletter, nem que seja pra cancelar a assinatura logo em seguida.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 54
No qual talvez almas sejam reais
Daisuke só havia se afastado dois quarteirões do ponto de encontro quando notou a presença de outro vampiro. Virou-se, se preparando para uma troca de hostilidades, possivelmente uma briga, mas era apenas Yuri.
“Achei que ele tinha ido para o outro lado.” Daisuke normalmente rumava direto da área neutra para o sul, indo para a mansão quase em linha reta. Yuri normalmente tomava o rumo do leste, talvez para caçar, talvez porque o apartamento de Yukio ficasse mais próximo da fronteira com Constantino.
— Daisuke, você vai voltar para a mansão? — Yuri perguntou.
Daisuke estranhou a pergunta, mas assentiu. Tentando falar de maneira natural, mas falhando, Yuri perguntou:
— Posso te acompanhar parte do caminho?
— Ah… claro.
Daisuke desacelerou. Haruka o queria de volta na mansão o quanto antes, mas era evidente que Yuri tinha algo a dizer, então Daisuke se empenhava em lhe dar tempo. Os dois caminharam mais ou menos lado a lado — próximos o suficiente para considerar que estavam andando juntos, mas com uma distância saudável entre si, pois os instintos vampiros gritavam com o excesso de proximidade —, mas Yuri deixava que Daisuke escolhesse em quais ruas virar. O silêncio começava a ficar insustentável, a curiosidade de Daisuke insistente como um mosquito.
"Ele vai falar quando estiver pronto." Disse a si mesmo, mas não tão paciente quanto gostaria.
Foi quando passaram no meio de uma praça mal iluminada com um parquinho e mesas de pedra onde idosos jogavam dominó que Yuri falou:
— Eu não quis falar na frente dos outros, não ainda, mas eu preciso falar disso com alguém.
"Finalmente." O alívio só não foi maior por causa daquele velho incômodo: Yuri parecia se incluir no mesmo grupo de Daisuke numa dicotomia "nós x os outros" que mostrava que ele acreditava que eram parte da mesma gangue. Não eram, e era um problema que os subordinados de Akihito contassem Daisuke como um dos seus.
— O que foi, Yuri?
— É que… tem mais.
E o jeito como ele disse isso fez Daisuke observá-lo com mais atenção. Yuri desviou os olhos, e tratou de se ocupar subindo em um dos brinquedos de criança, escalando o escorregador e subindo no telhado do forte de madeira. Ele parecia inquieto.
— Quando eu bebi o sangue do Ed… eu bebi até o final. E eu senti alguma coisa… se desprender. Por um segundo louco eu achei que tinha sugado com tanta força que as veias tinham descolado, sei lá. Mas não foi isso. Não foi isso, mas alguma coisa saiu dele, e entrou em mim. E desde então… Eu sinto saudade de assistir anime. Sendo que eu nem assistia anime, sabe? Eu sinto… vontade de fazer teorias sobre personagens de ficção. Coisas que não fazem sentido pra mim, mas que faziam sentido pro Ed. Eu vejo coisas que ele sabia e fico com a sensação de que as respostas estão na ponta da minha língua… só que não estão, porque era ele que sabia essas coisas, não eu.
Yuri falava baixo e rápido, mal dando tempo para Daisuke processar a informação.
— E o autocontrole… Daisuke, eu nunca me considerei "descontrolado", mas o Ed era um bastião de autocontrole. Eu acho que se ele achasse que conseguia ganhar do Yukio, ele o teria enfrentado, independente do sangue primário. O Yukio nunca teve o controle dele, e a sede de sangue nunca teve o controle dele. O Ed teve controle de si mesmo, até o fim. — engoliu em seco — E eu… eu não sei se eu consigo ser assim, mas eu consigo sentir que estou muito mais no controle do que eu estava antes. E isso me assusta, primeiro pela implicação moral de que agora eu tenho uma escolha entre fazer o que o Yukio manda e fazer o que eu acho certo, mesmo que seja difícil… e francamente porque eu comecei a acreditar em almas e acho que roubei a alma do Ed.
Yuri finalmente ficou imóvel. Não respirava, observando Daisuke atentamente pela sua reação. Daisuke ficou longos minutos em silêncio. Era difícil formar uma opinião sobre isso. E então decidiu que não precisava formar uma opinião. Não era uma votação, era um fato que já tinha ocorrido. Olhou para o ex-colega.
— Essa parte você não contou para o Yukio, né?
— Não. Quer dizer, eu acho que ele sabe que eu bebi o sangue do Ed, provavelmente ele queria que isso acontecesse… mas sobre o resto, eu não sei. Acho que não.
— Bom. Quanto mais coisas você tiver pra pegar ele de surpresa, melhor.
Yuri não pareceu entender.
— Se um dia você precisar enfrentá-lo.
— Eu… eu não acho que consigo.
— Você acabou de dizer que consegue. Você herdou isso do Ed, e você deve isso a ele. — vendo que Yuri se encolhia com a possibilidade, Daisuke suavizou o tom — Mas não é pra agora, é só… Só não deixe Yukio te transformar em alguma coisa que você não é.
O terceira-classe assentiu, e os dois ficaram vários minutos num silêncio que Daisuke esperava que fosse confortável. Depois de uma eternidade, Yuri perguntou:
— Você não está enojado com eu ter matado o Ed e bebido o sangue dele até sugar a essência dele? Ou pelo menos horrorizado com o conceito em geral?
Daisuke lhe ofereceu um sorriso triste.
— Um pouco horrorizado com o conceito geral, sim, mas…
Ele destravou o celular e encontrou uma mensagem não lida de Haruka.
— Você sabe como os terceira-classe na mansão me chamavam no começo? “Pet da Haruka”. — Apontou para o celular — Quando nossos criadores decidem que querem alguma coisa… é muito difícil não dar isso a eles. Esse é o meu apito de cachorro. Ela chama, eu venho. Porque eu não quero morrer.
Yuri se manteve em silêncio. Daisuke continuou:
— Eu imagino que com você seja o mesmo? — e, depois que Yuri assentiu — Então não tem muito o que fazer. Do jeito que as coisas aconteceram… de certa forma não perdemos o Ed. Eu achei engraçado como você e a Nat se deram bem quando nos encontramos da primeira vez. Vocês nunca tinham trocado mais do que duas palavras, né? É por isso que não consigo ficar com raiva de você. Só do Yukio.
E finalmente, pela primeira vez desde que haviam se reencontrado como vampiros, Yuri relaxou a tensão dos ombros e pareceu até rejuvenescer um pouco.
— Obrigado.
***
Daisuke ainda estava pensando na história de Yuri quando chegou no corredor do quarto de Haruka. Parou diante da porta dela, e ela o mandou entrar antes que precisasse se identificar.
— Você demorou. — Haruka acusou.
— Perdão. — ele disse, automaticamente.
Haruka assentiu, indicando que pedir perdão era a atitude correta — ela provavelmente preferiria que ele implorasse —, mas manteve o olhar sobre ele como se esperasse uma explicação.
Daisuke preferia nunca ter que recontar a história de Yuri. Nem mesmo para Nathalie. A amiga era mais próxima de Ed, talvez ela encarasse a notícia de forma diferente. Mesmo sem esse risco, ainda era um relato muito pessoal. Não seria direito espalhá-lo.
“Mas se a Haruka perguntar…”
Tudo o que foi capaz de fazer foi lançar um olhar de soslaio para Kim. Com sorte, Haruka entenderia sua hesitação como resguardo por estar diante do outro segunda-classe, e não como uma tentativa de ocultar informações dela.
Haruka olhou pra ele intensamente, procurando qualquer sinal de rebeldia ou afronta. Daisuke tinha medo que, de tanto procurar, ela acabasse encontrando. Nenhum nível de servilidade o manteria seguro se sua criadora ficasse paranoica e, graças à traição da gangue de Hong Kong e as lealdades duplas de Kim, Haruka tinha motivos para paranoia. Não achava que ela ia aprovar se desse um soco em Kim, mas entreteve a ideia de chutar os caixões onde a gangue de Hong Kong estava presa até hoje, e tirou algum conforto da violência imaginada.
Por fim, Haruka pareceu satisfeita consigo mesma e desistiu dos questionamentos. Indicou que Daisuke se sentasse. Passaram quase uma hora na rotina usual, em que Haruka se entretia com pintura ou caligrafia ou vídeos de reforma de móveis antigos (sua nova fixação, depois da papelaria, vídeos de manicure de cavalos e pontos turísticos curiosos do Brasil) e Daisuke tentava não morrer de tédio enquanto Kim olhava fixamente para a parede, quando Haruka disse, sem sequer levantar os olhos da tela.
— Tentem dormir um pouco essa noite, vou querer os serviços dos dois ao amanhecer.
— Sim, senhorita Haruka? — A ordem pareceu confundir Kim, mas Daisuke não tinha dúvidas do que estava acontecendo.
Estavam se mudando.
Na semana que vem, teremos o season finale de Técnicas Sanguíneas — Memento mori, no qual Haruka sai de casa.
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