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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 50
No qual Daisuke e Nathalie visitam lojas de móveis
Tempo estimado de leitura: 12 minutos
Da mesma autora de “3 capítulos para comprar um celular”, vem aí… “8 capítulos para comprar móveis”. (Brincadeira, mas enquanto eu editava o manuscrito, vir aqui e incluir mais momentos slice-of-life foi realmente uma parte importante).

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 50
No qual Daisuke e Nathalie visitam lojas de móveis
Daisuke estava tentando se forçar a dormir antes do amanhecer para conseguir descansar antes de sua aventura diurna quando Haruka chegou. Ouviu os passos de Kim pelo corredor e, um pouco depois, os dela. Haruka não parou na porta do próprio quarto, em vez disso continuando para o dele.
— Vejo que continua acordado. — Ela abriu a porta sem se anunciar ou pedir permissão.
Daisuke se sentou no futon.
— Eu ainda não sou bom de dormir à noite.
— Você vai aprender. Beba meu sangue hoje, você vai precisar.
O tom de Haruka não era um conselho ou sugestão. Daisuke se colocou de joelhos e se aproximou dela com a cabeça abaixada. Suspirou.
— Como desejar.
#
Os sonhos naquela noite foram intranquilos, o organismo vampiro se recusando a descansar no horário em que devia estar caçando, e a preocupação com a tarefa diurna prolongando seu sofrimento mesmo quando o sol nasceu. O toque do horroroso despertador analógico foi quase um alívio.
Daisuke:
Nat?
Está de pé o combinado?
Nathalie:
Sim. Praça do Arco?
Daisuke:
Arco da Praça*
Nathalie respondeu com uma risada, e Daisuke sorriu. Então seu sorriso murchou, e abriu o chat com Haruka.
Daisuke:
Estou saindo.
Não sei se você vai ver, mas vou mandando atualizações durante o dia.
Com isso saiu do quarto. Antes que deixasse a proteção da sombra recebeu como resposta de Haruka um emoji de joinha. Achou o fato surpreendente, mas não pôde pensar muito no assunto, já que sair no sol varria todos os pensamentos de sua mente.
Tinha dinheiro vivo o suficiente para pagar pelo ônibus, o que era um alívio. Já passaria tempo demais no sol enquanto olhava os móveis, não precisava ficar tostando durante o tempo de locomoção também.
Encontrou Nathalie sentada numa mesa na sombra. Ela havia arranjado óculos de sol coloridos, e usava uma blusa de manga comprida que não era um moletom.
“É um progresso.” Estava prestes a elogiar sua aparência quando reparou no rosto dela. Duas linhas vermelhas riscavam o rosto dela e, pelo guardanapo sujo de sangue, não eram as primeiras lágrimas do dia.
— Nat!
— Daisuke… — a voz dela estava trêmula de choro — Será que você pode me oferecer uma bebida?
Daisuke estendeu a mão para tocar na mão dela sobre a mesa e apertar de leve. Nunca havia usado Influência durante o dia, e a perspectiva de fazê-lo aprecia tremendamente cansativa, mas Nathalie valia a pena o esforço. Era um bom uso para o sangue de Haruka.
— Claro.
Dois garçons e uma garçonete depois, Nathalie ainda tremia e respirava fundo, mas parecia mais recomposta.
— Eu queria poder te dar um abraço. — Daisuke disse. Agora que havia gasto tanta magia sanguínea, não se sentia mais apto a encarar o sol, mas Haruka voltara da ópera absolutamente inflexível. Não queria arriscar ofendê-la voltando sem cumprir sua tarefa.
— Eu… eu quero um abraço. Se você não se importar.
Isso foi surpreendente. Daisuke assentiu, e se aproximou dela. Nathalie levantou. Os dois foram se aproximando até estarem desconfortavelmente dentro do espaço pessoal um do outro — a distância normal que dois brasileiros ficariam durante uma conversa, mas que para vampiros parecia perto demais — e então Daisuke começou a abrir os braços, hesitante. Nathalie engoliu em seco.
— Talvez um abraço de lado?
Os dois deram uma risadinha de alívio. Daisuke passou um braço pelos ombros de Nathalie tão de leve que era como se mal a tocasse, e deu uma apertadinha mais simbólica do que qualquer coisa. Se separaram como se fossem repelidos magneticamente.
— Ajudou?
— Ajudou, mas não como eu esperava. Foi tão esquisito que eu não tive mais espaço pra autocomiseração.
Outra risadinha embaraçada, e os dois se colocaram em movimento.
— As lojas da Carlos Heitor Cony primeiro? — ela perguntou.
— Isso. Você quer me falar sobre o que aconteceu?
Nathalie respirou fundo.
— O de sempre. É só que… eu nunca tinha me encontrado com você tão em cima do evento e daí você teve que me ver… descomposta.
— Você está no seu direito de estar “descomposta”…
Ela o interrompeu.
— Mas vai passar. E eu… eu tenho um plano. Eu adoro ser sua amiga, Daisuke, mas a verdade é que eu aceitei vir com você de dia porque isso é parte do meu plano. Eu quero… encontrar as brechas no sangue primário. Por exemplo, eu… eu pedi permissão pra sair “amanhã”, e ela concordou, provavelmente pensando em “amanhã” à noite… mas eu consegui sair de dia. E mesmo que eu não tivesse chorado, eu ia te pedir pra me trazer uma bebida. Pra ver se isso esbarra no sangue primário ou não… tudo bem que hoje eu não consegui prestar atenção porque eu fiquei agitada, mas… enfim. Você entendeu. Eu quero saber o quanto eu consigo esticar os limites. O quanto eu consigo escapar do controle dela sem ela perceber e decidir me matar igual matou o Nando.
A voz de Nathalie foi ganhando confiança conforme ela falava, e Daisuke sentiu o peito inflar de uma combinação de alívio e orgulho. Quis dizer alguma coisa encorajadora, mas Nat não deixou.
— Tem mais uma coisa.
O jeito como ela disse isso soou sério.
— O que foi?
— Você tem que prometer que não vai me julgar.
— Nat, quando você diz isso eu fico preocupado com quem exatamente você matou.
Ela deu um peteleco no braço dele para protestar contra a piada que talvez não fosse uma piada.
— Não é isso. Eu transei com o vampiro que levou meu celular.
— O tio do Jonas?
— Desde quando você fala no jargão de família do Constantino?
— Desde que a expressão “co-criado do criador” é um grau de parentesco muito estranho.
Nathalie revirou os olhos, mas assentiu.
— Ele mesmo.
Daisuke ficou em silêncio por vários minutos, e os dois entraram na primeira loja de móveis. Nessa parte da avenida os móveis eram chiques, mas Daisuke pretendia usá-los apenas como referência para ter uma ideia do que agradaria Haruka. Perguntou a um atendente sobre estilos passados e futuros, e o funcionário logo se afastou para buscar um catálogo.
— E foi bom? — Daisuke perguntou tão repentinamente que Natahlie demorou um instante para se lembrar do ponto em que a conversa estava.
— Hmm. Não em si, quer dizer, não foi ruim, mas não foi particularmente… Mas foi bom pra mim. No sentido que foi bom usar meu corpo do jeito que eu quero. Com quem eu quero. Com alguém que mesmo eu não gostando nem nada, pelo menos não estava me forçando e nem tentando me machucar.
Fazia sentido. Era horrível que Nathalie precisasse fazer esse tipo de comparação, mas fazia sentido. Daisuke queria tanto saber detalhes: de quem fora a iniciativa, se isso havia sido antes ou depois de negociar o acesso a Jonas, se esses pequenos rendez-vous eram um fato corriqueiro entre os vampiros de classe baixa das diversas gangues, ou se eram um tabu. Não perguntou nada, e guardou suas reflexões para si. Não parecia certo submeter Nathalie às suas especulações. Mas ela ainda parecia aguardar uma reação sua, então ele pensou um pouco antes de responder:
— Você com certeza está achando jeitos de se desvencilhar da Alana. Eu respeito isso.
“Eu queria ter coragem de tentar me desvencilhar da Haruka.” Do jeito que as coisas estavam, considerava um bônus que Haruka estivesse tentando se desvencilhar de Akihito.
Foram descendo a avenida, e a cada loja os móveis ficavam mais baratos, até que — depois do cruzamento que marcava o início do território de Weiss — começavam as lojas de móveis usados. Primeiro as lojas de antiguidades, para os ricos, e então as de artigos vintage, para os hipsters, até finalmente alcançar o estágio de brechós com preços de gente normal. Daisuke havia arranjado uma sacola para armazenar o número crescente de catálogos. Não que não estivesse fotografando os candidatos mais qualificados e enviando as fotos para Haruka. A essa altura a conversa dos dois estava pipocando de imagens acompanhadas por pequenas legendas: “mais próximo da paleta que o decorador escolheu”, “não sei se precisamos de uma cozinha funcional, mas essas são as tendências da moda”, “se possível, eu gostaria de uma escrivaninha”.
Não recebeu mais nenhum comentário de Haruka, verbal ou pictográfico, mas as mensagens foram marcadas como visualizadas.
“Será que ela sabe como tirar a marcação de visualização?” Ou talvez ela sequer se importasse.
Em suas mensagens, Daisuke cuidadosamente evitava mencionar preços, mas todas as fotos eram tiradas de um ângulo onde etiquetas e cartazes eram visíveis. O truque era fazer parecer que fora acidente, com a etiqueta cortada na foto com o melhor ângulo, mas curiosamente aparecendo em outra tirada para dar zoom em um detalhe.
— Se ela não gostar de nenhum desses, você vai ter que sair de dia de novo? — Nathalie perguntou quando eles terminaram o circuito do lado ímpar e estavam prestes a atravessar a avenida para fazer o caminho de volta.
— Eu não vou fazer você passar por isso de novo.
— Não é por isso, quer dizer… como eu falei, eu não sairia de dia se fosse só pra te acompanhar, mas… Eu também não quero você saindo de dia mais do que o necessário.
Daisuke deu de ombros.
— Alguma coisa deixou a Haruka agitada ontem à noite. Ela parece que está acelerando os planos. Não quero colocar as esperanças lá em cima, mas acho que vamos sair da mansão do Akihito logo.
— Nesse caso, vamos tentar marcar mais uma reunião com os meninos antes da sua mudança. Antes que o Yukio tenha algum motivo para barrar o Yuri.
Tinham um combinado.
Na próxima semana, a casa de Haruka fica pronta.
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