Técnicas Sanguíneas — Capítulo 49

No qual Haruka omite informações

Tempo estimado de leitura: 12 minutos

O que acharam sobre o capítulo da semana passada? Vocês estavam esperando a parte sobre os hábitos sexuais dos vampiros? Simpatizaram com a Haruka pelo menos um pouquinho? Não se preocupem, daqui a pouco a gente lembra que pra ela só vampiros puro-sangue contam como pessoas, e o sentimento passa kkk

Banner com fundo degradÊ preto em cima e azul em baixo, mostrando o título em vermelho "Técnicas Sanguíneas, parte 3, memento mori, de A C Dantas" com vários espinheiros no fundo.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.

Capítulo 49

No qual Haruka omite informações

No corredor do teatro, Haruka precisou parar para mandar uma mensagem para Kim. Normalmente ele estaria esperando com o carro na saída, mas ela saíra antes. É claro que Kim ficava dentro do carro, inteiramente à sua disposição, então respondeu imediatamente e chegou com o carro em menos de três minutos, mas Haruka não podia deixar de pensar no quão eficiente seria ter sangue primário e poder simplesmente convocá-lo.

Assim que Haruka entrou no carro, Kim deu a partida e começou a se dirigir para a mansão.

— Eu não quero voltar pra casa tão cedo. — Haruka avisou.

— Então para onde devo levá-la, senhorita?

Era uma excelente pergunta. Mandou ele circular pelo centro até que se decidisse. Se tudo o mais falhasse, pelo menos veria a cidade movimentada e os prédios iluminados. Isso sempre a acalmava. Ligou para Daisuke.

— Onde você está?

— No meu quarto. Eu já bolei meu roteiro para amanhã.

— Bom. — Ela desligou sem dizer mais nada, e sorriu.

Seu segunda-classe não estava tão solícito e deferente quanto quando voltara do exílio, mas ainda não havia detectado nele rebeldia verdadeira. Ele só queria que Haruka não matasse muitas pessoas, e se encontrar com seus amigos ex-caçadores de vez em quando — duas coisas que não a ofendiam ou atrapalhavam, já que discrição era uma das chaves para um estadia prolongada e pacífica em um território, e um segunda-classe que não podia caçar precisava se ocupar de alguma forma.

Então hesitou. Em Hong Kong falhara miseravelmente em detectar as intenções perversas de seus segunda-classes. E mesmo depois de recrutar Daisuke, não havia notado quando ele se encontrava com a caçadora de vampiros para vazar informações sobre a gangue de seu irmão. E se algo assim acontecesse de novo? Talvez ela só não fosse muito boa em ler as intenções das classes inferiores. Talvez ela também não fosse muito boa em ler as intenções de vampiros puro-sangues também, considerando o fiasco com Agonglô quinze minutos atrás, e a possibilidade não nula de seu irmão gêmeo nunca ter lhe contado que tinha uma técnica sanguínea.

“Falando em técnicas sanguíneas…”

Tarde demais, Haruka percebeu que deixara sua vida social entrar no caminho do seu objetivo final. O propósito de se aproximar de Agonglô era descobrir quais os feitiços sanguíneos da família dele, mas esse era o tipo de informação que não se compartilhava livremente. Esperava que falar sobre a coleção de feitiços sanguíneos de seus pais criasse uma atmosfera de “desprezo pelos tabus das gerações anteriores” que o levasse a compartilhar a informação que ela desejava, mas em vez disso… E agora teria que começar de novo, por correspondência, com algum puro-sangue da lista de noivos em potencial de sua mãe.

“Não é como se isso não fosse uma possibilidade desde o início.” Se Agonglô tivesse revelado qual a especialização mágica da sua família, e fosse apenas alguma coisa curiosa como o poder de levitar ou mover objetos com a mente, ela teria que fingir estar impressionada e então começar a pesquisar em outras fontes. Isso não a fazia se sentir melhor.

Kim quase pulou no assento do motorista quando Haruka soltou um palavrão em coreano que ele não ouvia desde que era vivo, mas não perdeu o controle do carro. Eram muitos anos de experiência como chofer de Haruka.

— Pare o carro.

— A senhorita deseja caçar? — Kim soava receoso. Estavam na área neutra. Como se ela não fosse capaz de caçar fora do território do irmão.

— Não. Eu vou ficar no carro. Você vai encontrar um dos subordinados de Alana e passar um recado.

Sabia que Alana tinha um celular, mas não haviam trocado números. Não achara adequado pedir a informação de contato de uma vampira de sociedade inferior, mas seria bem mais conveniente do que tentar achar um dentre quatro vampiros de mechas azuis no meio de uma cidade de dez milhões de habitantes.

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— Você acha que a Torre Alfa é parecida com a Torre de Tóquio?

— Você sabe que eu saí do Japão antes dela ser construída, né?

— Eu esqueço dessas coisas! — Alana reclamou, pulando para se sentar no corrimão de segurança da plataforma mais elevada da antena da Torre Alfa. Não era um lugar onde visitantes pudessem ir, mas com uma mistura de Influência e simplesmente escalar alguns obstáculos pelo lado de fora do prédio, Haruka e Alana chegaram no ponto mais alto da cidade.

— A vista é incrível. — Haruka disse, para mudar de assunto.

— Pois é. Até o Wilson vem aqui de vez em quando.

Era a primeira vez que Alana mencionava Wilson. O modo como ela pausou após dizer essas palavras indicava que estava medindo a reação de Haruka.

— Eu ouvi dizer que você conversa com ele às vezes. — Não perguntou como haviam se conhecido, ou sobre o que conversavam. Bastava um vampiro de primeira classe no seu círculo social. Podia ser Weiss? Podia. Tecnicamente seria menos pior, já que pelo menos por parte de mãe ele tinha linhagem conhecida, em vez de ser algum tipo de aberração da natureza. Mas o mestiço acabara com suas chances ao olhar para Haruka como se fosse a primeira mulher que ele havia visto na vida. Era melhor não dar a ele chance de se tornar inconveniente.

Haruka se debruçou sobre o corrimão e olhou pra baixo. Kim e a segunda-classe loira de Alana estavam parados em silêncio um do lado do outro na frente do carro. Não conversavam.

— Você não trouxe a Nathalie hoje?

— Ela vai sair amanhã, então eu quis que ela ficasse em casa hoje.

Fazia sentido.

— Você acha que ela é sua “segunda-classe de apoio emocional”? — vendo que Alana não conhecia o termo, ela explicou — É que você ainda tem o que… 50 anos? Você é quase um bebê. Mas quando você é um vampiro que mora no próprio território, você vê os humanos envelhecendo e morrendo, prédios sendo construídos, depois demolidos, até montanhas saem do lugar, às vezes. É importante ter alguma sensação de constância. Então a maioria dos vampiros adultos tem um segunda-classe que eles vão arrastando através dos séculos, e é sempre muito irritante quando esses morrem.

Na verdade, podia ser de partir o coração. Em Hong Kong, a perda de Lan fora quase tão devastadora quanto seu breve cativeiro. Alana pensou um pouco, mas apenas devolveu a pergunta:

— Você acha que o Daisuke é o seu?

— Eu ainda não tenho ele nem há dez anos, então não dá pra saber.

— E o seu irmão?

— Ele… — Haruka parou. Percebeu, surpresa, que não tinha certeza. Akihito arrastara Han e Kamino desde Hong Kong, mas passava todas as tarefas importantes para Kim, e depois Yukio. E esse era o tipo de coisa que ela devia saber sobre o irmão. — … também tem um.

Torceu para que o término abrupto de sua frase soasse intencional, até desdenhoso. Qualquer coisa para não admitir que o irmão não se abria com ela. Então finalmente decidiu falar sobre o assunto central da noite.

— Eu vou me mudar.

— Vai sair da casa do seu irmão?

— Sim.

— Parabéns! — Na voz de Alana a palavra soava mais como “finalmente”. — Quando você vai? Precisa de ajuda com a mudança?

Essa era uma pergunta de alguém que havia crescido sem servos. Normalmente teria todo o séquito humano e vampiro do irmão para embalar e transportar suas coisas. Agora, duvidava que fosse ter acesso a toda essa infraestrutura.

— Daisuke e Kim dão conta.

Alana assentiu.

— E eu vou continuar te vendo depois da sua mudança?

Haruka estranhou a pergunta, e Alana explicou:

— Você vai sair da cidade?

— Ah, isso. Não. Eu só vou para a fronteira sul do território do meu irmão. A gangue dele quase não caça por lá, então vai ser quase como ter um território só meu. Você e sua gangue podem até ter livre circulação! — brincou.

Alana ficou tanto tempo em silêncio que Haruka achou que as conversas amigáveis haviam acabado. Que Alana finalmente cansara de aceitar que Haruka considerava a sua companhia de baixa estirpe e que cortaria relações com ela por algum orgulho fútil de primeira-classe. Chegou inclusive a entreter pensamentos ridículos sobre Alana simpatizar com Akihito e criticá-la pela intenção de se mudar — sendo que um segundo atrás Alana a havia parabenizado por isso! — ou que enxergaria a ocasião como oportunidade para conquistar o próprio território. Odiava o próprio cérebro por estar sempre esperando que alguma coisa desse errado, mas a noite começara com o pé esquerdo.

— Obrigada. — Alana finalmente disse. — Por ser minha amiga. Eu sei que você tem preconceito contra primeira-classes, e que você só foi com a minha cara porque eu irrito o seu irmão, mas eu ainda gosto de ter uma amiga pra falar de coisas de garota.

Haruka deu de ombros. Sorriu.

— Eu também gosto.

Não se sentia inclinada a contar a Alana sobre a noite com Agonglô.

No próximo capítulo, Daisuke e Nathalie visitam lojas de móveis.

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