Técnicas Sanguíneas — Capítulo 48

No qual Haruka sai da ópera mais cedo.

Tempo estimado de leitura: 16 minutos

Eu gosto muito do capítulo de hoje. É um dos que (na minha opinião) fazem a gente esquecer por uns 5 minutos que a Haruka não é apenas racista, mas também escravocrata, e acabar torcendo por ela. Se depois de ler você quiser compartilhar sua visão sobre o assunto, você pode responder este e-mail, ou postar no BlueSky com a hashtag #TecnicasSanguíneas.

Banner com fundo degradÊ preto em cima e azul em baixo, mostrando o título em vermelho "Técnicas Sanguíneas, parte 3, memento mori, de A C Dantas" com vários espinheiros no fundo.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.

Capítulo 48

No qual Haruka sai da ópera mais cedo.

Mais uma vez Haruka estava se arrumando para sair, e Daisuke zanzava pelo quarto dela pegando as peças de roupa solicitadas enquanto ela decidia o que vestir.

— Daisuke, você já resolveu aquele assunto?

Daisuke piscou, a princípio com dificuldade de se lembrar de um assunto específico que ela o houvesse encarregado de resolver. A última pendência que tinha em aberto era…

“Mobília.”

— Eu olhei algumas coisas na internet.

— Isso é muito pouco progresso para alguém que tem tido tanto tempo livre quanto você.

Apesar da bronca, Haruka não parecia particularmente com raiva. De fato, ela sorria enquanto selecionava joias para usar, e chegou a cantarolar uma musiquinha. Daisuke às vezes se perguntava se ela ficava assim pela ópera, ou pelo seu acompanhante. Não conseguia imaginar Haruka flertando, mas ela chegara a mencionar uma “troca de favores” com Agonglô.

— Kim me levará hoje. Isso te dará tempo para se dedicar à sua tarefa.

— Hã… claro. Hmm… Haruka, eu tenho algumas perguntas sobre o assunto.

Haruka olhou para Daisuke, e então para Kim, calculando.

— Kim, me traga uma das criadas.

— Sim, senhorita.

Apesar de não ser incomum Haruka convocar uma das criadas quando não queria caçar, Daisuke odiava estar por perto quando isso acontecia. Havia um desconforto inicial por se lembrar da noite em que Hana morrera, mas o desconforto piorava ao notar que as empregadas humanas já estavam acostumadas com isso: posições padrão para parar na frente de Haruka, pequenos ajustes nas roupas e no cabelo para facilitar o acesso da vampira, e a facilidade para se rearranjar depois.

Assim que Kim se afastou o suficiente para a audição puro-sangue de Haruka, ela acenou para que Daisuke falasse.

— Você emitiu um cartão de crédito através do seu banco digital?

— Não.

— Você acha conveniente emitir um?

— Não.

Haruka respondera sem nenhuma hesitação, e era difícil saber se era porque ela já havia pensado sobre o assunto antes, ou se estava se opondo às sugestões de Daisuke por princípio. Talvez tivesse errado a mão em seus questionamentos, pois o bom humor de cinco minutos atrás havia evaporado.

— Hmm… qual é o meu teto de gastos?

— Me apresente uma proposta, Daisuke, e eu te digo se ela se encaixa no meu orçamento.

Ele assentiu, e queria fazer uma última pergunta, mas Haruka não lhe deu a oportunidade.

— E mesmo que você encontre algo interessante na internet, eu prefiro que você vá olhar pessoalmente. Claro que rumores do meu segunda-classe olhando móveis pela cidade chegariam muito rapidamente ao meu irmão. Vá de dia.

“Assim você me quebra…”

Desde seu retorno, Haruka ainda não havia lhe passado uma tarefa diurna. Claramente as férias haviam acabado.

— Haruka… eu posso levar a Nathalie comigo?

Isso teve o poder de surpreender sua criadora.

— Por quê?

— Só… pela companhia. Alana é sua amiga, certo? Então… não tem problema se ela ficar sabendo?

Haruka pensou sobre isso por vários minutos. Quando ouviram os passos da criada humana chagando pelo corredor — os passos de Kim eram mais discretos, então Daisuke demorou um pouco mais para ouvi-los — ela finalmente lhe deu uma resposta.

— Eu suponho que não. Faça isso, se ela estiver disposta a passar pela inconveniência.

Daisuke suspirou de alívio. Pelo menos não havia ofendido Haruka com a sugestão.

#

Quando Haruka e Kim saíram, Daisuke mandou uma mensagem para Nathalie.

Daisuke:

Você está disposta a se arrastar sob o Sol, por nenhum motivo específico além de me fazer companhia em uma tarefa que eu tenho que fazer pra Haruka?

Com Nathalie, nunca dava pra saber se a resposta viria dois dias depois ou dentro de alguns minutos. Dessa vez veio imediatamente.

Nathalie:

Quando você descreve as coisas desse jeito soa muito sedutor.

Daisuke:

É pra quando você me acompanhar e for horrível você não poder dizer que eu te fiz promessas falsas.

Nathalie:

“Quando”?

Não “se”?

Daisuke:

Eu acredito muito no meu potencial de ser sedutor.

Influência. Influência. Influência.

Acompanhou a última mensagem de uma figurinha mostrando um personagem com poderes telepáticos com as mãos sobre as têmporas e uma expressão concentrada. Nathalie respondeu com uma risada escandalosa.

Nathalie:

Eu não tenho argumentos para rebater isso.

Fora que eu acho que isso pode ser útil pra mim também.

Quando você quer ir?

Por um lado, Daisuke ficou feliz que ela aceitara acompanhá-lo. Por outro, tinha aquela pontinha de tristeza que o vampirismo parecia revestir tudo de um verniz predador e utilitário.

Daisuke:

Se você conseguir permissão da Alana, duas horas depois do nascer do sol ainda hoje.

Nathalie:

Hmm.

Onde “hoje” técnicamente significa amanhã, já que ainda são 8 da noite.

Acho que pode funcionar…

Daisuke não perguntou o que podia funcionar. Provavelmente ela estava pensando sobre como manipular Alana para conseguir sair. Enquanto esperava pela resposta dela, salvou várias imagens do tipo de mobília que achou que Haruka apreciaria, e foi anotando os nomes e endereços das lojas, criando um itinerário para ver a maior quantidade de móveis passando a menor quantidade de tempo sob o sol.

Parou.

As lojas de móveis vintage — sua aposta pessoal para o que satisfaria o gosto de Haruka — ficavam no território de Weiss. No qual a prole de Alana não tinha permissão para andar.

“Mas ninguém vai estar acordado pra nos ver lá, certo?”

A mansão de Akihito só usava vigias humanos durante o dia, e os caçadores sequer haviam adivinhado que os vampiros podiam sair de dia, então não podia ser uma ocorrência comum.

“Talvez seja só a Haruka que é esquisita.”

Esperava que sim. Estaria apostando a segurança de Nathalie na suposição de que a gangue de Weiss não tinha vigias diurnos.

#

Haruka e Agonglô estavam flertando. Isso, pelo menos, era óbvio. O que não era óbvio era o que isso significava, ou até onde as coisas iriam.

— Eu acho que vou mandar um buquê de flores para o camarim da soprano. — Agonglô disse, segurando óculos de ópera de maneira teatral. O camarote que dividiam era perfeitamente localizado, e a visão dos dois era mais do que suficiente para enxergar gotas de suor no rosto dos atores que penavam sob o figurino pesado e os holofotes.

— Ela é tão boa assim?

— Eu não faço a menor ideia. As flores são para me desculpar. Acho que faz três ou quatro apresentações que eu não a ouço. Minha atenção tem estado... comprometida.

— Com algo agradável, eu espero. — Haruka abriu um sorriso ferino.

— Mais agradável impossível.

As conversas dos dois já haviam passado por todo tipo de insinuações que seriam consideradas indecentes em séculos passados, mas não viviam em séculos passados. Começava a concordar com ele que a cultura se acelerara, e que ao se assimilarem os vampiros haviam acabado acelerando também. Será que seus pais haviam se assimilado ao Japão moderno? Ela mesma não conseguia reconhecer Tóquio ou Kyoto nas fotos cheias de neon que a internet lhe mostrava, mesmo que a noite sarapintada de luzes lhe parecesse natural na Cidade Alfa. Ou será que a partir de uma certa idade a assimilação era simplesmente muito trabalhosa, e por isso gerações de vampiros mais velhos se deixavam morrer quando poderiam durar mais trezentos, quatrocentos, quinhentos anos? Ela própria era jovem demais para chegar nesse ponto, mas e se a humanidade ficasse ainda mais rápida? Havia um limite para a velocidade de assimilação vampírica?

— E você também está distraída, mas não acho que seja com a mesma coisa. — Agonglô comentou, despindo um pouco da pose de conquistador.

Haruka gostava quando ele baixava a bola. O líder do território vizinho deixava de ser "o líder do território vizinho" para se tornar "só um cara". Estava conversando com um cara! Era uma novidade agradável. Compartilhou com ele suas divagações sobre a velocidade das mudanças culturais, e o que isso significaria para os vampiros.

— Hmm. Eu nunca tive medo de não acompanhar as mudanças. — Uma das coisas que gostava sobre Agonglô é que ele também ficava filosófico. Akihito sempre a ouvia em suas reflexões, mas era com o amor de alguém que não tem a menor ideia do que você está falando, mas te ama mesmo assim. Agonglô ouvia e oferecia uma réplica. Agonglô às vezes defendia sua réplica com ardor o suficiente para os dois terem que recuar um passo, e então perceberem que até então haviam estado dentro do espaço pessoal um do outro, e não haviam se incomodado com isso. Ele continuou. — O meu medo é mais na linha da humanidade ter algum tipo de colapso e precisar desacelerar subitamente. Eles morrem, e as novas gerações só vão conhecer o modo de vida novo, mas eu vou lembrar. Se tiver uma explosão solar e a humanidade precisar voltar para a época do telégrafo, como eu vou lidar com a falta de internet?

— Me conte sobre essa coisa de explosão solar. — Haruka pediu, como se fosse a coisa que ela mais queria saber na vida. Talvez ela só quisesse ouvi-lo falando.

E ele contou. Quando terminou, Haruka olhou para o palco, então de volta para seu acompanhante.

— Eu acho que também não estou prestando atenção na ópera.

— Será que devíamos ir pra outro lugar, então? Fazer algo especial, só nós?

Aí estava. A parte que não fazia sentido. Haruka não queria que soasse como uma negativa, mas precisava de esclarecimentos.

— Me parece um ideia muito agradável, mas eu confesso que não entendo bem o que você tem em mente.

Agonglô parou e olhou pra ela. Quase dava para ver as engrenagens no cérebro dele girando.

— Haruka… seu irmão gosta de agir como se você fosse inocente a ponto de não entender o que eu estou propondo, mas eu sempre achei que fosse uma omissão dele. Afinal, é desconcertante pensar na vida íntima de familiares próximos. Ou isso é uma daquelas coisas de consentimento? Você prefere que eu diga com todas as letras quando for perguntar? Porque caso não tenha ficado claro, eu estou falando sobre sexo.

— É claro que você está falando sobre sexo! — Ela revirou os olhos. — O que eu quero saber é como. Nós vamos nos relacionar sem mordidas?

Ele não estava preparado para ouvir Haruka pedir por minúcias do que fariam no sexo, mas conseguiu esconder a surpresa a tempo de evitar parecer um idiota.

— Por que a gente faria isso sem mordidas? Você está nervosa? É sua primeira vez?

Pela forma que Haruka olhou para ele, claramente aos olhos dela ele já era um idiota.

— Agonglô, a primeira coisa que meu irmão diz sobre mim para as pessoas é como a minha técnica sanguínea me impede de ter uma vida normal. Você não pode estar seriamente pensando em me morder.

Só então a ficha caiu.

— Você está dizendo que sua técnica é indiscriminatória?

— É.

— Aquela Alana consegue discriminar quem congela ou não quando bebe o sangue dela.

— Que bom pra ela. — "Porém eu gostaria de saber como você descobriu essa informação. Eu não acho que ela saia por aí contando para as pessoas."

Silêncio, quebrado apenas pela ária da cantora no palco.

— E a sua técnica... não enfraquece com o tempo?

— Não temos nenhum indício.

Mais silêncio. O solo da soprano foi substituído por um balé.

— Então pra se relacionar com você… ou mordidas ficam fora da equação, ou a pessoa vai depender do seu sangue pra sempre.

Haruka inclinou a cabeça, assentindo, sem confiar em si mesma para falar. Já havia passado dias insones pensando nisso. Nos dias otimistas, achava que poderia ter um relacionamento equilibrado: ela dependeria do parceiro para manter os segunda-classes na linha e controlar o território, e ele dependeria dela para sangue. Nos dias não tão otimistas, seus parceiros hipotéticos olhavam pra ela mais ou menos como Agonglô olhava agora.

— Isso foi um erro. — ele disse, sem pensar. Percebeu que falara em voz alta um segundo tarde demais.

— Um erro? — Haruka repetiu com afetação. — Sim, com certeza isso foi um erro.

Haruka colocou seu leque e o programa na bolsa, se levantou e saiu.

Não percam o capítulo da semana que vem, no qual Haruka omite informações.

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