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Técnicas Sanguíneas — Capítulo 47
No qual estruturas sociais vampiras se insinuam até nos círculos de amizade.
Tempo estimado de leitura: 15 minutos
Eu sei que minha última newsletter de atualizações foi deprimente, mas acho que o capítulo de hoje ainda configura como “fofinho”, vai. Depois me avisem o que acharam, adoro ouvir a opinião de vocês.

Aviso de conteúdo: esta é uma história de vampiros. Sangue e gente escrota manipuladrora são esperados. Para conseguir o que querem, vampiros vão recorrer a técnicas de coerção e manipulação variando desde gaslighting, ameaças, e violência física e psicológica. Podem ocorrer também menções ou alusões a abuso sexual.
Capítulo 47
No qual estruturas sociais vampiras se insinuam até nos círculos de amizade.
Jonas e Yuri ergueram seus copos com expressões de profundo desgosto.
— Vocês estão me dizendo que fazem isso por prazer? — Yuri perguntou, depois de alguns goles sofridos. Daisuke e Nathalie sorriram, e ele continuou. — É que… vocês… não gostavam de água com gás e milkshake antes, né?
Os sorrisos desapareceram. Entendiam o que ele estava querendo dizer.
— É como se a gente fosse outras pessoas. Eu não sei mais quem eu sou. É como se essa fosse… outra vida.
Nathalie sorriu para ele com suavidade.
— E eu espero sejamos amigos nessa vida também.
— Eu também. Mas você e o Daisuke tem a vantagem. Vocês se encontraram antes de encontrar a gente, não foi? Tiveram tempo pra se acostumar um com o outro de novo.
— Eu não entendo como a gente não se esbarrou antes. — Daisuke disse, dirigindo-se a Yuri. — Eu nunca te vi na mansão do Akihito.
— O Yukio… me mantém em prisão domiciliar. Quando ele me deixa sair eu tenho tão pouco tempo que só dá pra caçar e voltar correndo antes que o sol me pegue. Hoje ele me deixou sair, e eu confesso que queria aproveitar a noite pra… — pareceu envergonhado do que ia dizer — …caçar com calma.
Aquele mesmo medo que Nathalie e Daisuke haviam sentido no começo — medo do que estavam se transformando, e de como o outro reagiria — transparecia na voz dele. Nathalie sorriu pra ele, e estendeu uma mão sobre a mesa.
— Me dê sua mão.
Obediente, ele a estendeu por sobre a mesa, e Nathalie a segurou.
— Yuri, a não ser que você tenha descoberto que é um sádico e esteja dando um jeito de machucar as pessoas enquanto você caça por pura e simples diversão… você é um vampiro agora. E nós também somos. Nós não vamos te julgar por gostar de caçar, ou de beber sangue. Francamente, nem por fazer amizade com outros vampiros, se você tiver a chance. Essa sensação de isolamento, de perceber que fazem quatro dias que você não fala com uma pessoa… ela acaba com a gente.
Yuri olhava para as mãos conectadas dos dois. Quem ligava para quatro ou dezessete dias sem falar uma frase completa com um ser humano. Faziam quatro anos que não tinha contato físico com outra pessoa. O lado vampiro do cérebro queria se afastar, mandando sinais de perigo, mas ainda havia humanidade o suficiente nele para que a sensação de alívio fosse avassaladora. Ele demorou para conseguir reagir, parecia que sua voz não saía.
— Obrigado, Nat.
Para evitar sentimentalismo, Daisuke perguntou o que Yuri fazia para matar o tempo durante seu isolamento.
— Yukio me faz praticar japonês em livros didáticos velhos. Eu tenho que apagar o que alguma criança japonesa escreveu a lápis vinte anos atrás pra poder escrever por cima.
— Eu tentei aprender japonês assim uma vez. — Nathalie sorriu, dessa vez com humor. — Aquela sensação de que as criancinhas da primeira série do Japão falam japonês melhor do que a gente.
Isso atraiu o interesse de Daisuke.
— Eu não sabia que você estudava japonês.
— Foi coisa da minha pior fase otaku… depois que eu comecei a faculdade eu desisti de estudar japonês, mas eu sempre trocava figurinhas sobre anime com o Ed.
— Você nunca me contou! A gente podia estar batendo altos papos sobre anime!
— Eu não sabia que você gostava de anime!
— Só durante a adolescência, depois disso… — depois disso ele e Yuusuke haviam seguido caminhos diferentes, com Daisuke focando em diversões mais mainstream e ocidentais, e Yuu entrando de cabeça no mundo do K-pop e novelas chinesas. Quatro anos ainda era cedo demais para falar sobre isso. Só consideraria sua família segura quando os sobrinhos chegassem à idade da vovó Kiku. — …eu acabei deixando pra lá. Mas eu tenho muito tempo livre. Estou pensando com carinho em voltar.
Yuri olhava para Nathalie e Daisuke como se estivesse mordendo a língua para não dizer alguma coisa. Ele inclusive tomou um ou dois fôlegos para se acalmar, e então lançou os olhos ao redor, como se procurasse uma rota de fuga social.
Escolheu falar com Jonas.
— E você, curtia essas coisas de anime?
— Eu conhecia os mais populares só de nome, mas eu não ligava muito. Depois que eu comecei a frequentar a biblioteca eu até dei uma olhada na seção de mangás, mas eu não me acostumei a ler de trás pra frente.
— Você não era muito leitor quando estava vivo. — Nathalie observou.
— Não… mas… a biblioteca municipal fica no nosso território, então se eu pedir com jeitinho eu posso correr pra lá e ficar lendo até passar o toque de recolher. — Vendo que os outros não pareciam saber ao que ele se referia, explicou. — Os segunda-classe geralmente caçam mais cedo. Pra deixar o território livre pra eles, os terceira-classe nos mantém em casa até umas nove ou dez da noite. Então eu comecei a ir até a biblioteca, porque a alternativa era ficar no esconderijo do Johann com ele e o outro quarta-classe. Eu não queria “me enturmar” com vampiros.
Jonas pausou, e os outros três assentiram. Aparentemente essa era uma experiência compartilhada. Nathalie tomou a palavra.
— Eu só comecei a falar com outros vampiros agora. Pra encontrar o Jonas. Às vezes eles parecem pessoas normais, mas eu ainda sinto que preciso ter cuidado.
Outra rodada de assentimento. Mais uma experiência compartilhada. E então outra rodada de silêncio. Conversar com Yuri e Jonas não vinha tão naturalmente quanto conversar com Nat.
Mais uma vez, Yuri se dirigiu a Jonas.
— E que mangás tem na biblioteca?
— Tem uns de lutinha famosos, mas tem um com cara de romance chamado “Watashinotomodachi wa totemo nagai namae no anime ga sukidesu” e eu achei um absurdo não traduzirem essa coisa.
Nathalie riu.
— Você lembra muito bem de um título de mangá enorme pra alguém que nem gosta de anime!
— Eu posso ser um horror com idiomas, mas pelo menos eu tenho uma memória boa!
A conversa ficou no tópico de animes por vários minutos, e durante esse tempo puderam desfrutar de uma nostalgia pelo passado que não tinha a ver com suas mortes e transformações. Eram só um grupo de amigos adultos falando sobre o que assistiam nas respectivas adolescências. A revelação de que Nathalie era secretamente geek e que frequentemente conversava com Ed sobre nerdices fora surpreendente, mas agradável. Daisuke estava tão acostumado a vê-la se encolher reflexivamente que era bom vê-la saindo da conchinha. Yuri não conhecia metade dos animes que ela mencionava, mas parecia enlevado em ouvi-la.
Com alguns solavancos, o assunto foi migrando para as coisas das quais eles sentiam falta.
— Eu sinto falta do sol. — Yuri disse. — Às vezes eu tento ficar acordado até mais tarde e ver pelo menos a luz entrando pelas frestinhas da janela, mas eu nunca consigo.
Daisuke e Nathalie trocaram um breve olhar. Sabiam que ambos às vezes tinham insônia. Era curioso que isso não acontecesse com Yuri.
— Eu sinto falta de poder andar pela cidade inteira. — Jonas disse — O acordo de livre circulação do Akihito ajuda, mas eu não posso mais ir na faculdade de medicina quando chove.
Era uma atividade muito específica. Ele explicou:
— Eles tem eucaliptos nos portões da faculdade de medicina. Quando chove, caem um monte de folhas, e as pessoas e os carros passando por cima amassam elas, a rua toda fica com um cheirinho fresco, é… era… sei lá, liberdade tem esse cheiro.
Antes que Jonas pudesse ficar mais nostálgico ou filosófico, Yuri sacudiu a cabeça.
— Por favor, não. Tudo menos eucaliptos. Eucaliptos são uma espécie invasora, eles não oferecem nada pros nossos polinizadores, e ainda roubam todo o nitrogênio da terra! Você já andou num bosque de eucaliptos? Você não ouve um pássaro cantando, um zumbido de inseto, nada. É UMA ZONA MORTA!
Ao fim do discurso ele estava positivamente exaltado. Jonas se encolheu num gesto apaziguador, mas manteve o sorriso.
— Certo, certo, eucaliptos são do mal, já não está mais aqui quem falou…
Dessa vez era Nathalie quem olhava para Yuri como se estivesse engolindo palavras ou um sentimento. Ela mudou de assunto de forma um tanto abrupta.
— Vocês tem limite de horário pra hoje? Podemos ficar aqui conversando até a hora de fechar, mas também podemos ir num boliche.
— Hmm… o Johann me deixou ficar fora até mais tarde, mas eu ainda não cacei hoje.
Yuri só assentiu, possivelmente indicando que se encontrava na mesma situação.
— Peraí… Vocês vão todo dia? — Nathalie os encarava com fascínio. — Quanto tempo vocês demoraram pra aprender a não matar pessoas?
Jonas abaixou a cabeça e disse, um sorriso sem humor pendurado nos lábios.
— Eu tive que aprender desde o início. Quarta-classes são descartáveis. Se eu matasse alguém, não ia ter uma segunda vez.
— Como eles iam saber…?
— Johann me acompanhava e me fazia beber na frente dele. Era… humilhante.
Ele não notou o segundo de tensão nas posturas de Nathalie e Daisuke, e prosseguiu:
— Mas, se você está perguntando isso… você não caça todo dia? Eu achei que os segunda-classes… — dessa vez o olhar dos dois foi o suficiente para fazê-lo parar. — Desculpa. Não foi minha intenção.
Daisuke assentiu, mas Nathalie continuava tensa. Não a culpava. Os motivos para os dois não caçarem eram muito diferentes.
— Eu não posso caçar, Jonas. É a técnica sanguínea da Haruka.
Jonas piscou.
— Eu achava que isso era uma lenda. Algo que os segunda e terceira classe dizem pra assustar os novatos, fazer os puro-sangues parecerem mais assustadores.
— Acredite, eles já são assustadores o suficiente sem precisar inventar nada.
— Então quer dizer que você passou mesmo um ano e meio desaparecido? A gangue inteira recebeu ordens pra ficar de olho em você!
Yuri ficou repentinamente mais atento, e algumas coisas finalmente clicaram para Daisuke.
“Então era isso que o Yukio queria.” Estava explicado porque fora tão fácil conseguir Yuri. Yukio podia esperar que Daisuke baixasse a guarda na frente de um amigo e então extrair as informações do terceira-classe através do sangue primário. Não poderia dizer para Yuri nada que não quisesse sendo transmitido de volta para Akihito.
O resto da noite foi estranho. Daisuke e Nathalie não se sentiam mais no humor para aquela reuniãozinha. Yuri e Jonas pareciam ansiosos para partir, mas hesitavam em fazê-lo. Vários tópicos de conversa foram esgotados em uma frase ou duas para então cair num silêncio embaraçoso, até que Daisuke finalmente entendeu o que estava acontecendo.
Os vampiros de classe mais baixa estavam aguardando permissão para sair.
Não sabia se eles sabiam que estavam fazendo isso. Yukio, por exemplo, não instruiria Yuri a prestar deferência a Daisuke em particular, mas poderia haver uma ordem geral nesse sentido dada com o sangue primário. Ou podia ser um instinto.
Daisuke se levantou.
— Foi ótimo encontrar vocês. — ele disse — Eu espero que possamos fazer isso mais vezes.
Foi como se o feitiço fosse quebrado, Yuri murmurou uma despedida educada e desapareceu. Jonas ainda hesitou, olhando para Nathalie. Quando ela assentiu, ele também desapareceu na noite.
Daisuke e Nathalie se encararam, pensando em dizer alguma coisa, mas não havia muito o que dizer. Quando eram humanos, não tinham noção do quanto a escala de poder ficava insana quanto mais perto consanguineamente dos puro-sangues um vampiro estava. Aparentemente, para seus amigos da terceira e quarta classe, segunda-classe era perto o suficiente.
Na próxima semana, algo leva Haruka a sair da ópera mais cedo.
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